De rastro à memória de água à memória digital

Esse texto foi apresentado na conferência BIOLOGIA, EDUCAÇÃO, INDÚSTRIA 4.0 E SOCIEDADE organizada pelo Curso da Biologia na UNINORTE-ACRE (Brasil) no dia 28 de Outubro de 2020.

Prezados Professoras e professores do Curso de Ciências biológicas do Centro Universitário UNINORTE em Rio Branco-Acre,

Colegas acadêmicos, amigas e amigos Acrianos, concidadãos,

Boa noite,

Agradeço a UNINORTE, e a amiga estimada Professora Solange Chalub pelo convite e pela boa iniciativa de pensar a biologia em relação com a tecnologia em um mundo caracterizado pelas grandes transformações e mutações biológicas (com a COVID-19) e societais (no senso amplo, quanto aos efeitos da pandemia sobre o indivíduo e a sociedade).

Estou muito feliz em estar com vocês neste evento e desejo para vocês todos uma boa saúde e muito sucesso nos seus projetos apesar das complicações e das dificuldades.

Rastro

Hoje eu trago para este evento, que compartilho com biólogos interessados em abordagens multidisciplinares, a noção de rastro para pensar a memória e sua importância na era digital, pandêmica e pós-pandemia.

O debate, a que me refiro, sobre o rastro e a rastreabilidade digital, vem da França. A “Escola francesa sobre o rastro” ou a “Nova Escola Francesa do pensamento do rastro”, como alguns chamam, é um grupo de professores e pesquisadores que questionam a noção de rastro e seu uso nas disciplinas desde os últimos 10-11 anos. A noção de rastro não tem um significado único nem um uso só. Os trabalhos reúnem vários entendimentos, interpretações e perspectivas que se referem às áreas científicas e pontos de vistas diversificados. Questionar o que significa o rastro, nos ajuda para entender problemáticas contemporâneas como a pandemia de Covid-19 e a cultura digital, mas traz também argumentos filosóficos sobre a existência, a origem do universo e a evolução do ser humano.

Na ciência, os rastros nos mostram a história da evolução:

As primeiras partículas, os átomos, moléculas, estrelas, células, organismos, seres vivos, até os animais curiosos que somos (…) todos se sucedem na mesma cadeia, são todos carregados pelo mesmo movimento (…) os elementos que compõem nossos corpos são aqueles que formaram o universo (Reeves H., de Rosnay J., Coppens Y., Simonnet D., 1995)1.

Como diz Jacques Derrida:

Cada rastro é um rastro de um rastro. Nenhum elemento nunca está presente em qualquer lugar (nem simplesmente ausente), há apenas rastros.

Béatrice Galinon-Mélénec2, Professora Emérita em Estudos da Comunicação na Université Le Havre Normandie na França e fundadora do Human Trace UNITWIN Complex Systems Digital Campus UNESCO, um laboratório digital que dirige várias publicações sobre o “rastro”, define o rastro como uma parte do real que um indivíduo interpreta como consequência. Nesta perspectiva, ela propõe colocar os termos “pegada”, “índice” e “marca” em subgrupos dentro da categoria “rastro”. Ela apresenta o paradigma de “Homem-Rastro” (Homme-Trace) postula que:

O ser humano é ao mesmo tempo, produtor de rastros e construto de rastros, operando em ciclo, um sistema em que cada um constrói o outro em um continuum (Galinon-Mélénec, 2011).

Uma outra maneira de ver o rastro é proposta por Alain Mille, Professor Emérito na informática e Inteligência Artificial na Universidade Claude Bernard em Lyon.

De acordo com ele:

Um rastro é constituído a partir de pegadas deixadas voluntariamente ou não no ambiente durante um processo. O rastro assim construído é escrito (ou não) no ambiente usado como suporte de memória (como um processo)3.

Segundo ele, a natureza das pegadas é variável e qualquer processo pode ou não produzir pegadas mais ou menos persistentes, inscrevendo-se no ambiente e então distinguíveis por observadores informados como um rastro do processo inicial. A observação é, portanto, um processo cognitivo para distinguir a pegada como um rastro de algo que pode fazer sentido.

Desse modo, o rastro pode ser entendido como uma consequência/uma observação e interpretação de uma inscrição produzida por um processo. Pois então há primeiramente o processo, que faz inscrição/ou pegada no ambiente onde acontece a interação. A pegada se torna rastro quando ela é percebida e é associada com um sentido ou uma significação. Vamos pensar a vida na Terra com sua biodiversidade e seu ambiente transformante, dois temas que os biólogos estudam e analisam.

Se tomaríamos a hipótese que a origem da vida em nossa planeta Terra é aquática, podemos dizer que a água é uma pegada de algo, de um processo que permitiu a sua formação ou a sua chegada na Terra. Ela se tornou rastro quando nós, seres inteligentes, entendemos essa substância e determinamos suas qualidades: é um líquido incolor, sem cheiro e transparente, composto de hidrogênio e oxigênio, de fórmula química H2O. Ela é um dos principais componentes da biosfera e cobre a maior parte da superfície do planeta.

Cerca de 71% da superfície da Terra é coberta por água em estado líquido. Do total desse volume, 97,4% aproximadamente, está nos oceanos, em estado líquido. A água dos oceanos é salgada: contém muito cloreto de sódio, além de outros sais minerais. Mas a água em estado líquido também aparece nos rios, nos lagos e nas represas, infiltrada nos espaços do solo e das rochas, nas nuvens e nos seres vivos. Nesses casos ela apresenta uma concentração de sais geralmente inferior à água do mar. É chamada de água doce e corresponde a apenas cerca de 2,6% do total de água do planeta. Cerca de 1,8% da água doce do planeta é encontrado em estado sólido, formando grandes massas de gelo nas regiões próximas dos pólos e no topo de montanhas muito elevadas. As águas subterrâneas correspondem à 0,96% da água doce, o restante está disponível em rios e lagos4.

A água é a fonte de toda a vida. Ela apareceu na Terra cerca de 4 bilhões de anos atrás. E é gracas às minúsculas “algas azuis” (verdes-azuis) que a vida surgiu. Essas algas azuis, da classe das oxifotobactérias5, realizam a fotossíntese oxigenada e podem, portanto, transformar a energia solar em energia química que pode ser utilizada pela célula fixando dióxido de carbono (CO2) e liberando oxigênio (O2).

Assim, a hipótese que a água possibilitou o surgimento da vida na Terra, coloca a água como rastro da vida. Na representação mental e simbólica que rastreamos sobre o significado do rastro, falamos cronologicamente de vários elementos:

No início tem o processo que deixa uma inscrição em um ambiente determinado. Essa inscrição é uma pegada do processo que aconteceu. Quando essa pegada é observada/estudada, ela ganha um senso/significado e se tornaum rastro/consequência.

Processo (interação/ambiente) → inscrição → pegada → observação (interpretação) → rastro (consequência).

Assim a água é um rastro de um processo que ele mesmo é rastro de algo, que nós ainda não conhecemos. Este processo ainda é um assunto de um debate científico baseado em duas hipóteses: interna e externa. A primeira sugere que a água deriva da desgaseificação do interior da Terra no momento de sua formação; a segunda propõe a sua chegada na Terra do espaço por asteroides e cometas. O que importa aqui é que a água está incluída em um sistema complexo e que está em interação permanentemente com seus ambientes. Isto nos leva para uma nova hipótese formulada nos anos 80 do século XX por Jacques Benvéniste6, médico e imunologista francês, sobre a memória da água.

Memória da água

Na sua hipótese, Benvéniste enfatiza que a água tem a capacidade de reter propriedades de substâncias que nela estiveram diluídas, mas que não mais se encontram ali. Por consequência a água tem uma memória7. Uma hipótese que produziu polêmicas científicas e foi muito criticada na medicina. O estudo8 realizado pelo pesquisador e sua equipe mostrou que as moléculas da matéria teriam uma forma de memória que permanece, mesmo após fortes dissoluções, ao passo que qualquer rastro físico da molécula desapareceu por completo. Seria uma espécie de “pegada”, da memória, ainda ativa, embora indetectável. Ou seja “as moléculas da água de alguma forma retiveram uma memória dos anticorpos com os quais haviam entrado em contato anteriormente, de modo que um efeito biológico permaneceu quando os anticorpos não estavam mais presentes”9.

Assim sendo, qualquer substância que entra em contato com a água deixa rastros. A água tem a capacidade de receber e registrar a pegada de qualquer influência externa, memorizando tudo o que está acontecendo em seu ambiente próximo. A composição química da água permanece como está, mas sua estrutura reage, como o sistema nervoso reage a cada irritação. Isso é dito, podemos pensar a água como um disco rígido cheio de informações? Se for possível, nós precisamos conhecer sua organização, seu novo alfabeto, porque a estrutura molecular é o alfabeto da água.

A água, presente nos corpos de muitos animais incluindo os humanos, é uma ação de informação10. Porque dentro do corpo humano tudo está conectado. As informações circulam além do espaço e do tempo. E a estrutura da água é fundamental e é a chave para muitos fenômenos biológicos e físicos.

Esse postulado mostra a dimensão informacional e comunicacional da água e consolida seu entendimento como rastro/consequência de processos diversos. O fenômeno elétrico mínimo no corpo humano permite que as células se comuniquem umas com as outras. Essa comunicação intercelular pode ser modificada pelos campos elétrico, ambiental e eletromagnético? Se isso for provado, poderíamos identificar a presença de vírus ou bactérias em conexão com patologias infecciosas por meio de sinais magnéticos eletrônicos? Poderíamos parar a transmissão do SARS-CoV-2 que causou a morte de centenas de milhares de pessoas no mundo e perturbou a vida econômica e social? A minha pergunta vem de uma esperança mais de que de uma evidência biológica, por que não sou biólogo e não me permito teorizar na biologia molecular ou na medicina. E a resposta, se houver uma, fica nos rastros, que constituem a memória da água, quem poderiam trazer, talvez, clarificações e novas perspectivas.

Memória digital

Os rastros biológicos e antropológicos, fragmentos de ossos, nos mostram que a origem de homem vem dos Hominínios (Hominina) que compõem uma subtribo de primatas Hominídeos11. O fóssil mais antigo atribuído ao gênero Homo foi descoberto na Etiópia e remonta a 2.8 milhões de anos atrás.

O Homo sapiens é a única espécie ainda viva da família dos Hominídeos e é o único representante atual do gênero Homo, estando as demais espécies extintas. A espécie surgiu há cerca de 300-350 mil anos na região leste da África. Ele distingue-se por sua capacidade de exteriorizar, não apenas seu corpo, mas sobretudo suas funções cognitivas12. Com a ferramenta, o Homo sapiens coloca sua memória fora de si mesmo, adicionando às memórias genéticas e nervosas uma terceira memória, que abre a possibilidade de um patrimônio e de uma cultura.

Se reduziríamos a memória a uma capacidade psíquica de registrar a experiência vivida pelo sujeito, nós negamos a ela qualquer dimensão coletiva. De acordo com Louise Merzeau (2006)13, a memória é outro nome da transmissão, opondo-se ao presente comunicativo a profundidade do tempo longo – aquele dos arquivos, afiliações e rituais.

No seu Livro Rogue Archives: Digital Cultural Memory and Media Fandom (2016) [Arquivos malandros: memória cultural digital e fãs de mídia], a pesquisadora americana Abigail De Kosnik examina a prática de arquivamento na transição da mídia impressa para o digital. Ela escreve que os “Estudos em Memória” remontam ao menos até o Fedro, escrito por Platão no século 4; mas o campo em sua forma contemporânea foi iniciado por Maurice Halbwachs no seu livro Les Cadres Sociaux de la Mémoire (1952) [Os quadros sociais da memória], no qual Halbwachs articulou sua teoria de memória coletiva. Segundo ele a memória é menos o produto de uma apreensão do que de uma construção, onde a montagem de fragmentos exige a retransmissão dos quadros sociais da linguagem, do espaço e do tempo. Halbwachs argumenta que, como os indivíduos formam suas memórias na sociedade, é também na sociedade que eles recordam, reconhecem e localizam suas memórias. Eu entendo então que essas memórias são feitas de rastros individuais e coletivos.

O digital

Cada era sociotécnica da memória produziu sua própria “memória da totalidade”. Durante muito tempo foi sem dúvida a biblioteca que representou esta totalidade. Até o advento da tecnologia digital, podíamos distinguir duas classes de objetos técnicos:

  1. Memórias externas dedicadas ao registro das informações;
  2. Ferramentas e instrumentos destinados a prolongar uma faculdade física ou cognitiva.

Na era digital, qualquer máquina registra e processa informações. De automóveis a computadores, câmeras a consoles de jogos e telefones a eletrodomésticos, a memória se tornou um componente em todos os nossos artefatos.

A web é ao mesmo tempo um novo meio que se complementará e / ou competirá com os meios anteriores, mas também uma meta-mídia (meta-meio) que engloba todos os outros e que os transformará em uma indústria de memória através das possibilidades de acesso transversal e arquivo permanente.

Vannevar Bush, um dos pioneiros da Internet, apresenta em um artigo publicado em 1945 [Bush V. (1945). Como podemos pensar. The Atlantic], um aparelho que se chama Memex, que é um dispositivo eletrônico conectado a uma biblioteca capaz de exibir livros e mostrar filmes. Bush descreve o Memex como uma extensão da memória humana: “é um suplemento ampliado e íntimo de sua memória (humana)”. [It is an enlarged intimate supplement to his memory].

Nos ambientes digitais, toda atividade deixa rastros, tudo é memorizado automaticamente, instantaneamente, muitas vezes sem a nossa vontade, sem o sabermos e sem o nosso controle. A hipermemória, da qual pensamos que a internet vai realizar, é apenas uma memória “maquinica”, uma anti-memória . Ela é uma memória de conteúdos, relações, comportamentos (Merzeau, 2012)14. Tudo é rastro, e as redes vão exigir esforço, investimento, regulação, para esquecer ou para organizar e produzir memória. No livro Rastros digitais: da produção para a interpretação [Traces numériques : de la production à l’interprétation (2013)], orientado pelos Béatrice Galinon-Mélénec e Sami Zlitni da Universidade Le Havre Normandie, os autores reunidos concordam com a materialidade da inscrição digital e com a ideia de que o estatuto de rastro dado à inscrição digital advém da forma como a olhamos, do leitor receptor, das relações e interações com o ambiente.

A água e o documento

Voltamos para a memória da água. A inscrição que faz pegada nos faz pensar, nós da área da informação e da comunicação, no documento ou no fragmento documental. Por quê? Só existe documento quando um objeto material ou eletrônico tem forma, conteúdo e função. Seguindo Jean-Michel Salaün , um documento é representado em três dimensões: forma, conteúdo e meio (Salaün, 2011): o que é visto, o que é lido e o que é conhecido [le Vu, le Lu et le Su].

A função do documento é a memória. E esse ponto é muito importante. Nós registramos informações sobre um objeto para transmiti-lo ou preservá-lo para referência. A pegada carrega informações gravadas que o rastro lhe confere valor e significado. Se a água, em sua interação com os diferentes ambientes em que circula, registra diversas informações (a memória da água), essas inscrições / gravações formam um conteúdo. A água, neste caso, é um objeto material que se assemelha ao documento porque não para na fase de registro da informação em suas moléculas, mas constrói sua memória, que é a função de memória do documento. A última função dá à água a capacidade de superar barreiras do espaço e do tempo para transmitir informações e assim fazer parte de uma memória coletiva, que é a nossa.

Poderíamos aprender desta hipótese/modelo que a água nos mostra, para investir nossos rastros em projetos de memória? A pandemia e a aceleração na transformação digital em todos os cantos nos levam para pensar nossos rastros em uma continuidade, em uma comunidade/um contexto, em memória compartilhada. Se a coleção de rastros se abre para uma reapropriação, ela implica também uma coletivização desses rastros. Já que tudo o que fazemos hoje, na era pandêmica, é uma escrita digital, uma inscrição, a memória que retomamos o controle deve, antes de mais nada, ser exportável, independente de sistemas e ferramentas, protegível, pesquisável, configurável e arquivável. Seu uso não deve ser restrito a especialistas em gestão da informação, mas tão acessível para todo mundo. São desafios que interrogam a biologia, como todas as disciplinas e os setores, em nosso mundo digital, pandêmico e pós-pandemia.

Muito obrigado pela sua atenção.


1Reeves H., de Rosnay J., Coppens Y., Simonnet D. (1995). La plus belle histoire du monde, Le Seuil, Paris.

2Editora-chef do “Ichnos-Antropos. Le carnet de L’Homme-trace”https://onhumantrace.hypotheses.org/

3Mille A. (2013). Traces numériques et construction de sens, in Galinon-Mélénec B., Zlitni S., Traces numériques : De la production à l’interprétation, CNRS Éditions, Paris, p. 111.

4Só Biologia, A Água no Planeta, https://www.sobiologia.com.br/

5Cyanobacteria, Wikipedia, https://fr.wikipedia.org/wiki/Cyanobacteria

6Em 1988, Jacques Benveniste publicou na revista científica britânica Nature um trabalho de pesquisa sobre uma memória hipotética da água.

7Ina (2019). 1988, Jacques Benveniste et la mémoire de l’eau, https://www.ina.fr/contenus-editoriaux/articles-editoriaux/1988-jacques-benveniste-et-la-memoire-de-l-eau/

8Davenas, E., Beauvais, F., Amara, J. et al. Human basophil degranulation triggered by very dilute antiserum against IgE. Nature, vol. 333, p. 816–818 (1988). https://doi.org/10.1038/333816a0

9Ball Ph. (2004). The memory of water, https://www.nature.com/news/2004/041004/full/news041004-19.html#B1

10Milbert B. (2016). Mémoire de l’eau et Biologie numérique, https://www.youtube.com/watch?v=pEOusCBaDg4

11Hominidae, Wikipédia, https://fr.wikipedia.org/wiki/Hominidae

12As funções cognitivas são as habilidades de nosso cérebro que nos permitem comunicar, perceber nosso ambiente, concentrar-nos, lembrar um evento ou acumular conhecimento.

13Merzeau L. (2006). Mémoire. Médium, vol. 1, n° 9, p. 153-163.

14Merzeau L. (2012). L’industrialisation de la mémoire, Colloque Les Métamorphoses numériques du livre II, l’Agence régionale du Livre Paca, Aix-en-Provence.

Como “manufaturar” no mundo digital?

Este texto é a intervenção de Dr. Hadi Saba Ayon na reunião do grupo de pesquisa TIPEMSE na Universidade do Estado da Bahia no Brasil sobre a “Emergência da Literacia Digital no Cenário da Sociedade Pandêmica do Séc. XXI”. 

O que é o digital? Por que manufaturar hoje no mundo digital?

Manufaturar é produzir com trabalho manual. Manufatura significa obra feita à mão.No processo manufatureiro vigora a divisão do trabalho, onde cada operário realiza uma operação utilizando instrumentos individuais. A manufatura sucedeu o artesanato, no século XV, como forma de produção e organização de trabalho[1].

Eu uso o verbo “manufaturar” como metáfora, porque o uso da tecnologia na era digital ainda passa pelas mãos. Computadores, celulares, tabletes, objetos conectados, todos esses dispositivos precisam da mão, de dedos para produzir e compartilhar um conteúdo. Mas o ecossistema digital, na sua essência e no seu funcionamento, não é manual nem opera artesanalmente. Ele é informático, computacional, binar, e consiste num conjunto de dispositivos eletrônicos (hardwares) capazes de processar informações de acordo com programas (softwares) e em rede.   

Seguindo Milad Deouihi, historiador de religiões e detentor da cátedra de humanismo digital na Universidade de Paris-Sorbonne, o digital é a ultrapassagem da tecnologia computacional para os usos culturais no mundo digital. Ele é:

Um ecossistema dinâmico animado pela normatividade algorítmica e habitado por identidades polifônicas capazes de produzir comportamentos perturbadores (Doueihi, 2013).

Este “urbanismo virtual nascente” está mudando as nossas sociedades e a construção dos espaços que habitamos. Ele se caracteriza com:

Fronteiras e limites que definem espaços íntimos ou reservados para o culto, espaços de conhecimento ou entretenimento, espaços marcados pelo uso e frequentados pela prática. “Um urbanismo híbrido, portanto, habitado por rastros, pedaços de documentos, fragmentos, mas também animado pela voz e corpo, uma temporalidade outra (Doueihi, 2011).

Brutalmente, o SARS-CoV-2 invadiu as nossas sociedades colocando a nossa civilização em perigo. A pandemia de Covid-19 nos obrigou a mudar muitos hábitos de vida. Ela impactou a interação social transformando nossos modelos de viver (morar, trabalhar, se socializar, estudar, viajar etc.). As circunstâncias dessa situação nos levam a pensar no surgimento de um novo mundo. Quais serão suas figuras? Como fazer saber, informar e comunicar? Como tomar parte e intervir em uma ação? Como compartilhar e fazer parte integrante em uma atividade, de uma comunidade? Como associar-se pelo pensamento ou sentimento? Como participar e construir uma sociedade digital e de conhecimento? Quais identidades e habilidades neste novo mundo? Quais comunidades? Quais trabalhos?

Muitas questões, que nos perguntamos, eu e o Professor Carlos Antonio Villa Guzmán da Universidade de Guadalajara no México, em nossa inciativa/texto escrito (que vai ser publicado logo) para emergir um coletivo internacional PANDEMIA, CULTURA DIGITAL E PARTICIPAÇÃO, que pensa a cultura participativa no mundo digital, pandêmico e post-pandemia.

Como explicar a cultura participativa e reinventar o nosso cotidiano? Como a pandemia redefine o nosso espaço e as estruturas arquitetônicas no ambiente digital? Mais questões para debater com um grupo de colegas em um webinário intitulado “Post pandemic, participation matters” (Pós-pandemia, questões sobre a participação) na Escola da Comunicação na Universidade Católica da Indonésia em Jacarta no final deste mês. Muitas questões, e poucas respostas até o momento.

E hoje estou com vocês no Grupo de Pesquisa TIPEMSE na Universidade do Estado da Bahia para debater sobre a “Emergência da Literacia Digital no Cenário da Sociedade Pandêmica do Séc. XXI”. Pensar a educação no digital começa para pensar o digital, não só como suporte e mídia, mas sobretudo como ambiente: Isso é o primeiro passo para uma literacia ou uma transliteracia que nós precisamos.

Seguindo Louise Merzeau, Professora e pesquisadora francesa que faleceu em 2017 e deixou um trabalho científico notável, a transliteracia se refere as:

1. Habilidades criativas e produtivas (como conceber, realizar, modificar);

2. habilidades do ambiente (buscar, achar e entender a informação, analisar uma situação ou um processo);

3. e as habilidades reflexivas (entender que os sistemas digitais tem valores, e seu uso e seu domínio permitem fazer sociedade com um olho crítico).

A transliteracia envolve 3 dimensões:

1. Uma capacidade para desenvolver competências individuais;

2. uma capacidade coletiva para agir com os outros;

3. e uma capacidade política para agir no ambiente e mudá-lo.

Neste sentido, mais de que restringir ou proteger nossos dados, nos temos interesse em fazer um rastreamento, ou seja, inserir nossos rastros digitais em uma comunidade, um contexto e uma temporalidade para sobreviver no mundo post-pandêmico e digital.

Obrigado.


[1] No site dos Significados: https://www.significados.com.br/

Face au diktat de la pandémie : le numérique égalitaire ?

Face au diktat de la pandémie : le numérique égalitaire ?

Ce texte intégral, rédigé par Dr. Hadi Saba Ayon, est le prolongement de son intervention dans la Séance d’échanges « L’invisibilité des personnes en situation de handicap dans le contexte de la Covid-19 », organisée par le Réseau international sur le processus de production du handicap (RIPPH), le 29 avril 2020.

Le numérique peut-il nous sauver en temps de pandémie – et plus tard en ère post-pandémique ? Comment devrions-nous penser nos actions individuelles et collectives dans ce « lieu des liens » (Merzeau, 2013)[1] caractérisé par une traçabilité inscrite dans une dimension computationnelle ? Une fois de plus, nous nous trouvons nez à nez avec le numérique, interrogeant son aptitude à trouver des réponses à nos incertitudes. Serait-il un « nouveau processus civilisateur » (Doueihi, 2018)[2] ? Pourrait-il le devenir face à un processus de « décivilisation » déclenché par le SARS-CoV-2 ?

La mort de milliers de personnes dans le monde ; les témoignages sur l’abandon de personnes vulnérables touchées par la COVID-19 tels que rapportés par des familles et des organismes défendant et/ou s’occupant de personnes en situation de handicap dans le monde[3] ; le triage des patients pour les admissions en réanimation[4]… tant des chiffres et d’histoires nous confrontent à des « processus d’humiliation » (Smith, 2001)[5] dont sont victimes les populations vulnérables et notamment celle en situation de handicap.

Culture numérique et animalité fondamentale

Fascinés par la technologie et ses promesses d’un avenir meilleur pour nos sociétés, nous étions épris par le numérique que Milad Doueihi, historien des religions et titulaire de la Chaire d’humanisme numérique à l’Université de Paris-Sorbonne (Paris-IV), a nommé « un nouveau processus civilisateur », empruntant le terme au sociologue allemand Norbert Elias. Ce que Elias appelle « le procès de civilisation » est en fait une correspondance entre le processus historique de mainmise sur le pouvoir par un État centralisé et l’autocontrôle exercé, par les individus, sur leur violence spontanée, leurs instincts et leurs affects. Elias décrivait les humains (des sociétés européennes) du vingtième siècle comme des « barbares tardifs » ou des « barbares modernes » (late barbarians). Ces derniers ont été décrits par Doueihi comme étant des « sauvages modernes » soumis à un « humanisme numérique » :

Le résultat d’une convergence entre notre héritage culturel complexe et une technique devenue un lieu de sociabilité sans précédent.

Pour Doueihi, le numérique est une culture :

« dans le sens où elle met en place un nouveau contexte, à l’échelle mondiale, et parce que le numérique, malgré une forte composante technique qu’il faut toujours interroger et sans cesse surveiller (car elle est l’agent d’une volonté économique), est devenu une civilisation qui se distingue par la manière dont elle modifie nos regards sur les objets, les relations et les valeurs, et qui se caractérise par les nouvelles perspectives qu’elle introduit dans le champ de l’activité humaine ».

Brutalement, le SARS-CoV-2 envahit notre monde et nous renvoie à notre animalité fondamentale. Stéphane Audoin-Rouzeau, historien de la Première Guerre Mondiale, écrit :

« Nous restons des homo-sapiens appartenant au monde animal, attaquables par des maladies contre lesquelles les moyens de lutte demeurent rustiques en regard de notre puissance technologique supposée ».

Sommes-nous face à un processus de « décivilisation » déclenché par le SARS-CoV-2 ? Qu’est-ce qui est susceptible d’entraîner un tel bouleversement ? Pouvons-nous trouver des réponses « du côté de l’abaissement de la calculabilité des risques sociaux, de l’accroissement des dangers, de la montée des incertitudes, qui peut survenir en période de crise sociale », épidémique ou pandémique ? Difficile d’y répondre encore.

Accablée par sa différence corporelle ou fonctionnelle ou comportementale tout au long de sa vie, la personne en situation de handicap se trouve dans le numérique, en période pandémique, à égalité avec les internautes. Le corps est au cœur de l’interaction sociale : on vit et on se construit à travers son corps. Mais à l’heure actuelle, cette interaction sociale (corporelle) – est fortement limitée – Covid-19 oblige. Ce corps devient suspect dans l’espace public et même privé. Il est contrôlé, jugé. Il est souvent mis à l’écart, abandonné, parfois même expulsé. Le Sars-Cov-2, comme le Sida, bouleverse le rapport à autrui, brouille les règles qui fondent la confiance, et renforce la contrainte vis-à-vis de l’agent contaminent. Pour l’anthropologue Françoise Héritier, les solutions trouvées par l’humanité à l’égard des problèmes comme le Sida, sont passées plutôt par la contrainte que par la nécessité de convaincre.

Cela peut paraitre désespérant parce que les contraintes de base vont plutôt du côté de l’intolérance que de la tolérance, mais l’expérience que l’on a de la maladie contagieuse inguérissable ou de la maladie épidémique meurtrière, montre que les différentes sociétés s’en protègent par la fuite parfois, mais généralement plutôt par la mise à l’écart, par l’abandon, l’expulsion ou la mise à la mort de l’agent contaminant.

Le corps de la personne en situation de handicap, un point de stigmatisation sociale, devient soudain égal aux autres corps. Ce qui compte (fait peur) c’est la présence d’un corps, n’importe lequel, à une distance suffisamment éloignée pour être perçue comme sécurisante (au moins un mètre). C’est ainsi que tous les corps deviennent égaux vis-à-vis de la peur, de la maladie, et de la mort.    

Face à cette crise universelle effrayante qui agite nos vies et perturbe nos habitudes, l’humanité trouve dans le numérique une voie vers la continuité de l’organisation et le fonctionnement de ses sociétés. S’informer, communiquer, télétravailler, étudier, faire ses courses, gérer ses affaires administratives : plus que jamais, le numérique se montre comme un environnement où est inscrit le processus social. Devant la contrainte de la distanciation physique, les individus se trouvent obligés dans leurs interactions d’abandonner ou de diminuer leurs relations présentielles face au risque d’être infectés ou de contaminer autrui. Le corps devient suspect. Avec son retrait de l’espace public, il arrache de l’interaction sociale son « symbolisme » au sens Meadien (de George Herbert Mead), dans la mesure où l’interaction symbolique engage un processus d’interprétation et de définition par lesquelles les uns établissent les significations des actions des autres et redéfinissent leurs actes. Se nichant dans les environnements numériques, toute interaction produit des traces. À majorité involontaires, ces dernières échappent à toute énonciation et produisent de l’information sur nos comportements. Selon Louise Merzeau (2013), ces traces résistent aux interprétations de la sémiologie car elles relèvent d’une autre logique. Tout en elles est produit d’un traitement : « traitement informatique des instructions, traitement algorithmique des données, traitement économique et stratégique des bases d’intentions ». Aujourd’hui les entreprises numériques tendent à imposer la logique marketing à travers le modèle du personal branding, du profilage et de l’e-réputation. « Opposer à cette acception publicitaire une fonction publicatoire des traces représente un enjeu politique et culturel majeur » (Merzeau, 2013).

Rappelons qu’Internet est une opportunité pour la démocratie, grâce aux fondements égalitaires qui ont présidé à sa naissance et à son développement (Cardon, 2010) . Pourtant des communautés usagères se trouvent encore en difficultés face à l’accès ; à l’accessibilité et à la réappropriation des traces. Comment les personnes en situation de handicap pourraient-elles donc aménager leur habitat numérique tout en garantissant une pleine participation sociale ?

Equipement, accès, accessibilité 

La convention relative aux droits des personnes handicapées (ONU, 2006) reconnait les droits de ces personnes à avoir « pleinement accès aux équipements physiques, sociaux, économiques et culturels, à la santé et à l’éducation ainsi qu’à l’information et à la communication pour jouir pleinement de tous les droits de l’homme et de toutes les libertés fondamentales ». Ainsi la notion d’accès est une condition essentielle à l’exercice des droits humains.

En positionnant la notion d’accès dans le domaine conceptuel de l’environnement pour mesurer son impact sur la participation sociale, Patrick Fougeyrollas et ses collègues (2015) ont présenté l’accès comme étant le croisement entre six dimensions et des composantes de l’environnement. Les dimensions sont les suivantes : la disponibilité ; l’accessibilité ; l’acceptabilité ; l’abordabilité ; l’utilisabilité et l’adaptabilité. Ainsi la question n’est pas réduite à l’accès à l’outil informatique, au fournisseur de réseau et à un accès filaire ou sans fil. Nous sommes devant une phase nécessitant une littératie numérique, un apprentissage et un savoir-faire, impératif à l’usage de la technologie et à l’administration des contenus.

Beaucoup d’études montrent des obstacles à l’accès ou un accès limité à la technologie numérique par des diverses populations dont les personnes en situation de handicap. Je cite une récente étude intitulée :

« Perspectives des jeunes adultes sur la réception des services de télépsychiatrie dans un programme d’intervention précoce en milieu urbain pour le premier épisode psychotique : une étude d’enquête descriptive transversale » (Perspectives of Young Adults on Receiving Telepsychiatry Services in an Urban Early Intervention Program for First-Episode Psychosis: A Cross-Sectional, Descriptive Survey Study) publiée en mars 2020 par un groupe de chercheurs Montréalais (Canada). L’étude montre l’existence des connaissances limitées sur la télé-psychiatrie dans les services spécialisés pour le premier épisode psychotique, « malgré son potentiel pour améliorer l’accès aux services et l’engagement ». Elle souligne que plus de la moitié des participants (59%) « ont rarement ou jamais utilisé le chat vidéo traditionnel (par exemple Facetime) ». L’étude signale que « Malgré les obstacles rencontrés pour assister aux rendez-vous et exprimer leur réceptivité à l’égard de la télé-psychiatrie, les participants n’avaient pas accès à ces services ».

A l’ère où le numérique affecte les facteurs personnels, environnementaux et les habitudes de vie de chacun et de chacune, une pleine participation sociale des personnes en situation de handicap ainsi que de toute personne devrait interroger l’usage plutôt que l’accès. Qu’est ce qu’on peut faire avec et dans le numérique pour que notre présence ne soit pas limitée à une/des identités exploitées par les traqueurs de traces (gouvernements, entreprises, individus, etc.) ? Nous sommes en face d’un écosystème sociotechnique où l’usager est le centre et le cerveau, d’où l’importance, pour la personne en situation de handicap ainsi que pour toute autre personne, de réfléchir à des méthodes et à des manières pour développer le lien social, l’estime de soi, la maitrise de sa vie et de son temps, la qualité de vie, et pour construire des communautés en ligne. Comment penser les traces numériques dans une logique qui ne les renvoient plus à une identité mais à une aptitude à en gérer la communication ?

Le concept de la « fracture numérique » (manque d’accès à la technologie) pousse à croire que le problème de l’inclusion numérique serait résolu dès lors que des mesures parviendraient à « inclure » les groupes qui sont exclus. Le web est conçu de sorte qu’il fonctionne pour tous les internautes, quel que soit leur matériel, leur logiciel, leur langue, leur localisation ou leurs capacités.

Dans ce cas le web devrait être accessible à des personnes ayant diverses capacités auditives, motrices, visuelles et cognitives.

Selon le World Wide Web Consortium (W3C): 

« L’accessibilité du web signifie que les sites web, les outils et les technologies sont conçus et développés de façon à ce que les personnes handicapées puissent les utiliser ».

Plus précisément, les personnes peuvent : percevoir, comprendre, naviguer et interagir avec le web et y contribuer. L’accès aux terminaux et à Internet ainsi que l’aménagement de poste de travail en fonction du handicap ne sont pas suffisants pour avoir une participation sociale en réseau. Le numérique n’est pas qu’un enjeu technique et économique, mais participe à la construction d’un projet de société.

Mettant sa différence corporelle ou fonctionnelle de côté, la personne en situation de handicap peut s’impliquer dans des projets de production collaborative pour répondre à ses besoins (individuels et collectifs). Cette « forme de contribution » (collaborative) nous renvoie, selon Serge Proux (2014) à un univers de relations d’échanges horizontales, modestes, entre pairs où les contributeurs sont engagés dans :

« Un univers d’attentes normatives communément partagées. Il y a des valeurs partagées entre les contributeurs comme la liberté d’expression, la logique du don, la nécessité de la coopération ». 

Co-construire des mémoires

Comment fonctionner activement dans la société de la connaissance ? Comment faire émerger un nouveau « vivre-ensemble » ? La pandémie actuelle nous rappelle que nous sommes noyés dans l’information. Cette dernière est partout, fiable et fake, archivée et mal-documentée, multimédia. Si son accès est facile, son usage et sa transformation en connaissance ne sont pas évidents. Le numérique a chamboulé la notion de la réception. Le schéma émetteur-récepteur (connu en Sciences de l’information) ne s’applique plus sur l’information en réseau, au moins sur l’internaute-usager. Ce dernier n’est plus qu’un récepteur de l’information (comme c’était le cas avec les médias de masse), mais il la produit, il va la chercher, la partage, crée des réseaux, participe à des conversations et élabore des communautés. Aujourd’hui, nous nous intéressons à deux logiques parmi d’autres dans les usages numériques en période pandémique : la première est passive, reçoit/consomme l’information, la like et la partage (surtout sur les réseaux sociaux et les applications de chat, etc.). La deuxième, quant à elle produit/co-élabore l’information, la mémorise et la partage (sur des pages web, des plateformes de rédaction collaborative, des blogs, etc.). Le passage de la réception de l’information à sa production et son partage nécessite de penser le numérique non pas seulement comme un support et/ou un media, mais aussi comme un environnement à habiter et à améliorer. Ceci implique un développement de compétences numériques, mais surtout une vision d’une appropriation des traces numériques dans des environnements « intelligents », qui peuvent servir à nous former, à trouver et comprendre des informations et à analyser des situations ou processus. Dans notre nouveau monde (pandémique et post-pandémique), échanger ensemble autour d’un thème ou d’une problématique devient écrire ensemble et mémoriser. C’est de cette façon que les personnes en situation de handicap, ainsi que toutes autres personnes, s’approprient leurs traces numériques dans des structures architecturales qui autorisent des lectures-écritures attachées à l’instant, mais aussi extraites d’autres temporalités.

Construire ou co-construire un environnement numérique « intelligent » signifie élaborer une mémoire numérique, qui peut augmenter le pouvoir individuel, collectif et surtout l’action sur l’environnement pour le transformer quand c’est nécessaire.

Fin.

N.b: Traductions en anglais et en portugais suivront.

Bibliographie

– Cardon D. (2010). La Démocratie Internet, Promesses et limites, Seuil, Paris.

– Doueihi M. (2018). Le numérique, un nouveau processus civilisateur, Le Monde, 24 janvier 2018, https://www.lemonde.fr/idees/article/2018/01/24/le-numerique-un-nouveau-processus-civilisateur_5246335_3232.html

– Doueihi M. (2011). Pour un humanisme numérique, Seuil, Paris.

– Fougeyrollas P., Boucher N., Fiset D., Grenier Y., Noreau L., Philibert M., Gascon H., Morales E., Charrier F. (2015). Handicap, environnement, participation sociale et droits humains : du concept d’accès à sa mesure. Revue Développement humain et changement social, avril 2015, p. 5-28.

– Lal Sh., Abdel-Baki A., Sujanani S., Bourbeau F., Sahed I., Whitehead J. (2020). Perspectives of Young Adults on Receiving Telepsychiatry Services in an Urban Early Intervention Program for First-Episode Psychosis: A Cross-Sectional, Descriptive Survey Study. Frontiers Psychiatry, 11:117, doi: 10.3389/fpsyt.2020.00117

– Lepalec A., Luxereau A., Marzouk Y. (1997). Entretien avec Françoise Héritier. Journal des anthropologues, n° 68-69, p. 21-33.

– Merzeau L. (2013). L’intelligence des traces. Intellectica, vol. 1, n° 59, p. 115-135.

– Newton T. (2008). (Norbert) Elias and Organization: Preface. Organization, 8(3), p. 459-465.

– Paillé S. (2017). La sociologie de Norbert Elias et « l’effondrement de la civilisation » en Allemagne. Cycles Sociologiques, vol. 1, n° 1, https://cycles-sociologiques.com/publications__trashed/sabrina-paille-la-sociologie-de-norbert-elias-et-leffondrement-de-la-civilisation-en-allemagne/

– Proulx S. (2014). Enjeux et paradoxes d’une économie de la contribution, dans La contribution en ligne : pratiques participatives à l’ère du capitalisme informationnel, Presse de l’Université du Québec, Québec.

– Smith D. (2001). Organizations and Humiliation: Looking beyond Elias. Organization, vol. 8, n° 3, p. 537-560.


[1] Merzeau L. (2013). L’intelligence des traces. Intellectica, vol. 1, n° 59, p. 115-135.

[2] Doueihi M. (2018). Le numérique, un nouveau processus civilisateur, Le Monde, 24 janvier 2018, https://www.lemonde.fr/idees/article/2018/01/24/le-numerique-un-nouveau-processus-civilisateur_5246335_3232.html

[3] Voir l’article de Jérôme Val sur France Inter « Coronavirus : a-t-on oublié les foyers de handicapés ? » publié le 15 avril 2020, https://www.franceinter.fr/coronavirus-a-t-on-oublie-les-foyers-d-handicapes.

Voir « L’alerte de 48 associations sur le sort des personnes handicapées, ‘oubliées de la pandémie’ de coronavirus » publié le 04 avril 2020, https://www.lejdd.fr/Societe/lalerte-de-48-associations-sur-le-sort-des-personnes-handicapees-oubliees-de-la-pandemie-de-coronavirus-3959794

Voir l’article d’Emely Lefrançois dans La presse « Personnes en situation de handicap : les milieux de vie dont on ne parle pas » publié le 20 avril 2020, https://www.lapresse.ca/debats/opinions/202004/19/01-5270046-personnes-en-situation-de-handicap-les-milieux-de-vie-dont-on-ne-parle-pas.php

Voir l’article de Autistics for Autistics Ontario intitulé “Intellectually disabled Canadians are dying in residential institutions: What’s happening & what can be done” publié le 17 avril 2020, https://a4aontario.com/2020/04/17/intellectually-disabled-canadians-are-dying-in-residential-institutions-whats-happening-what-can-be-done/

[4] Voir l’article de Vincent Olivier dans L’Express « Covid 19 : va-t-on « sacrifier » des malades en réanimation ? » publié le 12 mars 2020, https://blogs.lexpress.fr/le-boulot-recto-verso/2020/03/12/covid-19-va-t-on-sacrifier-des-malades-en-reanimation/

Voir l’article d’Eric Jozsef dans Libération « Covid-19 : la sélection des malades divise le corps médical italien » publié le 19 mars 2020, https://www.liberation.fr/planete/2020/03/19/la-selection-des-malades-divise-le-corps-medical-italien_1782400

[5] Smith D. (2001). Organizations and Humiliation: Looking beyond Elias. Organization, vol. 8, n° 3, p. 537-560.