Das práticas do Samba aos esquemas do webinar: participação como compartilhamento, governança e memória

Essa palestra foi apresentada no Congresso Internacional de Tecnologias e Gestão do Conhecimento do Território de Irecê organizado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA-Irecê) e Universidade do Estado da Bahia (UNEB-Irecê). CITGC 2021 31 de Maio 02 de Junho | Irecê-BA, Brasil

Introdução

Bom dia a todos,

É um prazer estar aqui com vocês. Quero agradecer o esforço de cada uma e de cada um para organizar este congresso, bem como a nossa mesa que recebe uma presença valiosa do Sudeste Asiático, para discutir temas sobre a tecnologia digital, a cultura, a educação e os desafios sociais.

Hoje trago comigo, na minha apresentação, muitas dúvidas e algumas descrições e comparações. Procuro pensar os processos de participação, de compartilhamento, da governança e da memória. Quero falar de um lado, sobre o Samba, como modelo cultural e artístico de participação entre artistas, músicos e “fandom” (fãs); e do outro lado do webinar, como modelo acadêmico e social de participação entre organização, especialistas ou profissionais e membros. Como a pandemia de Covid-19 forçou as pessoas a minimizarem sua comunicação face a face e substituí-la pela comunicação digital, o webinar, como uma conferência ou reunião on-line, assume um grande lugar e suas práticas são desenvolvidas no domínio acadêmico, bem como em muitos setores profissionais. Neste contexto, o Carnaval teve de ser cancelado este ano no Brasil, e sua celebração foi substituída por diferentes práticas e eventos artísticos e culturais digitais. Existe alguma conexão ou semelhança entre o samba e o webinar? Caso afirmativo, o que isso nos ensina?

Por que falamos do Samba em um congresso especializado em tecnologias e gestão do conhecimento? É porque gostamos do samba? É porque é tempo de pandemia e sentimos falta de eventos do samba? Essas podem ser explicações pessoais dos motivos. A motivação científica da nossa escolha é que entendemos o Samba como uma cultura participativa e suas práticas como um modelo de participação muito interessante para descrever e estudar. Por isso perguntamos: qual é a relação entre o samba e a cultura digital? Mais especificamente, qual é a ligação entre a escola de samba e a memória digital? Podemos comparar a escola de samba a um curso online, um webinar ou um exercício colaborativo? Podemos usar essa comparação para definir a noção de participação e ver como isso ajuda na gestão do conhecimento?

Escola de samba

Em um artigo intitulado “Alguns critérios poéticos e sociais para o design educacional”, o cientista da computação e educador sul-africano e americano Seymour Papert escreveu em 1975, que o aprendizado sobre e por meio da tecnologia pode ocorrer em ambientes automotivados e apoiados pela comunidade, como a escola de samba do Brasil. Ele escreve:

Se você aparecesse em uma escola de samba em uma típica noite de sábado, você iria levá-la para um salão de dança. A atividade dominante é a dança, com o acompanhamento esperado de beber, conversar e observar a cena. (…). Você logo começaria a perceber que há mais continuidade, coesão social (…). A questão é que a Escola de Samba tem outro propósito além da diversão daquela noite em particular. Este propósito está relacionado com o famoso Carnaval que dominará o Rio e em que cada Escola de Samba assumirá um segmento da longa procissão de dança de rua com mais de vinte e quatro horas de duração. Este segmento será uma apresentação elaboradamente preparada, decorada e coreografada de uma história, tipicamente um conto folclórico reescrito com letras, música e dança compostas recentemente durante o ano anterior. Portanto, vemos as funções complexas da Escola de Samba. Enquanto as pessoas vêm para dançar, elas participam simultaneamente da escolha e da elaboração do tema do próximo carnaval; as letras cantadas entre as danças são propostas de inclusão; a dança é também a audição, ao mesmo tempo competitiva e de suporte, para os papéis principais, o ensaio e a escola de treinamento para dançarinos em todos os níveis de habilidade (a tradução em portugues é nossa).

Em seu livro, co-escrito com Mizuki Ito e danah boyd, e intitulado Participatory Culture in a Networked Era: A Conversation on Youth, Learning, Commerce, and Politics (2015), Henry Jenkins fala sobre o samba no Rio de Janeiro enquanto aborda a noção de cultura participativa. Ele escreve:

Quando fui ao Rio, há alguns anos, visitei uma das escolas de samba e saí com uma noção clara do que Papert estava falando. Em qualquer momento, existem muitos modos diferentes de engajamento: alguns assistindo e observando, esperando para participar, enquanto outros estão na pista de dança e outros são muito mais periféricos, assistindo da varanda e mandando mensagens para seus amigos. Existem locutores em um sistema de som solicitando ativamente a participação, persuadindo os membros tímidos da comunidade a irem para a pista de dança. A certa altura, um grupo de pessoas com o que parecia ser uniforme de polícia ou militar avançou pelo espaço, agarrando pessoas que suspeitavam não contribuírem para o esforço coletivo. Ansioso para não ser “detido”, perguntei ao meu hospedeiro o que fazer, e ele sugeriu colocar uma camiseta festiva que recebemos na porta. Ele percebeu que, mesmo se eu não pudesse dançar, eu poderia pelo menos ser decorativo. Este foi um grande lembrete das muitas maneiras diferentes de os participantes podem contribuir e da necessidade às vezes de convidar, encorajar e, neste caso, até obrigar a participação em vez de tomá-la como certa (a tradução em portugues é nossa).

Webinar

Agora vamos falar sobre webinar ou web conferência. O termo “webinar” é uma combinação da palavra web e da palavra seminário/seminar, significando uma apresentação, palestra ou workshop que é transmitido pela web. De acordo com o dicionário Merriam-Webster, é “uma apresentação educacional online ao vivo durante a qual os telespectadores participantes podem enviar perguntas e comentários”. Na Wikipedia, lemos que o uso inicial se referia puramente à transmissão e ao consumo de streaming de áudio e vídeo pela World Wide Web. Agora é provável que os webcasts permitam a resposta do público às pesquisas, comunicação de texto com apresentadores ou outros membros do público e outras comunicações bidirecionais que complementam o consumo do conteúdo de áudio / vídeo transmitido.

Para ter um webinar, primeiro precisamos de conexão à Internet e algumas tecnologias que incluem software e funcionalidades. Em segundo lugar, precisamos de um hospedeiro: uma organização ou um indivíduo para fornecer acesso, regras, cadastro, gravação e gerenciamento.

Um webinar, como o que temos hoje, precisa ser preparado: técnicas, gerenciamento de tempo, palestrantes, público, marketing e um conjunto de regras para funcionar. Os participantes precisam de contas (ou e-mails) para se cadastrar e se conectar por meio de um link, para respeitar as regras para que possam interagir (com os palestrantes ou entre eles).

Um webinar tem um objetivo. Primeiro, ele substitui a interação face a face por qualquer motivo (por causa da pandemia nos dias de hoje). Em seguida, tem como objetivo apresentar palestras sobre um ou diferentes tópicos e discuti-las. As interações entre os participantes variam. Podem limitar-se a escrever mensagens (questões e comentários) na sala de bate-papo, ou a realizar intervenções orais ou audiovisuais. Os graus de envolvimento de cada um variam em função das suas ações, dos rastros digitais que produz ou deixa no ambiente digital que constitui o webinar, mas também fora deste ambiente (falar ou escrever sobre o webinar em outras plataformas). O webinar tem uma duração: começa e termina em horários específicos. Podemos registrar e especificar os termos de seu acesso, para que possamos verificar seu conteúdo a qualquer momento e de qualquer lugar.

De um sistema de símbolos a um sistema de rastros

As escolas de samba são umas das instituições culturais mais famosas do Brasil. Estão presentes dentro das comunidades, principalmente as afro-americanas. O samba é resultante de estruturas musicais europeias e africanas, mas foi com os símbolos da cultura negra brasileira que ele se alastrou pelo território nacional, tornando-se uma das principais manifestações culturais populares.

O samba é uma manifestação cultural. É mais de que um ritmo, uma dança. É um evento popular. Uma cultura. Transmite valores, história e narrativas de memória. Segundo Vinícius Ferreira Natal (2014)1, as expressões carnavalescas possuem papel importante na constituição do espaço urbano e cultural. Não é o caso do webinar, onde humanos e fatores técnicos e comunicativos coabitam e se trocam para produzir dinâmica, conteúdo, conhecimento e realidade? Os participantes do webinar e suas práticas não elaboram somente o ambiente digital e participam da editorialização do conteúdo, mas também da própria realidade.

O samba, como cultura, deve ser estudado em sua complexidade. Não podemos analisar agora todos esses fatores, mas vamos nos concentrar em um: a comunicação. Seguindo Edward T. Hall, as atividades de vida são interações dinâmicas do organismo com seus ambientes. Essa interação é influenciada pela presença de outros organismos do mesmo tipo, suas características variam, conforme Gregory Bateson, que fala sobre a análise interacional do comportamento humano. Ele cria o conceito de cismogênese, distinguindo entre dois tipos de processos de diferenciação (cismogênese): o primeiro é simétrico e o segundo é complementar. Em relações simétricas, os parceiros se envolvem em uma espiral de magnitude crescente do mesmo comportamento, enquanto em relacionamentos complementares os parceiros juntos formam uma entidade bipolar.

Esses dois níveis de relações podem ser vistos na escola de samba. Por exemplo, entre o Mestre da bateria e seus percussionistas (relação complementar). É o mesmo no webinar? Nós pensamos que sim. Esses dois níveis de relações podem ser vistos na comunicação entre os organizadores e os membros de um webinar, bem como entre o último e os palestrantes principais. Também pode descrever o feedback que os membros podem produzir após o webinar, dando comentários, notas de avaliação ou até mesmo escrevendo sobre o evento em vários ambientes digitais.

Entendemos a cultura do samba como um sistema de símbolos vivenciado e tratado pelos sujeitos sociais. Mostra práticas e valores comuns compartilhados entre os membros da comunidade. Eles podem ser descritos como sinais. Os movimentos e comportamentos nos ambientes de samba podem ser definidos como símbolos seguindo Erving Goffman (1973) ou “signos-rastros” seguindo Béatrice Galinon-Mélénec (2011).

De acordo com Galinon-Mélénec (2020)2:

Tudo é um signo (o corpo e todo o material fora do corpo, ou seja, os humanos e seus ambientes humano e não humano), e todos os signos são o resultado de interações. Nessa interpretação, ao conectar um signo àquilo que o produziu, o signo torna-se um “signo-rastro”. Essa associação conecta rastros do passado às suas interpretações presentes. Nesse sentido, todo signo é signo-rastro do processo que o construiu. Os signos-rastros não são apenas numerosos, mas em movimento perpétuo (a tradução em portugues é nossa).

Os símbolos comportamentais podem se tornar signos-símbolos e promover o sentimento de pertencimento a uma comunidade, que compartilha os mesmos valores, como é o caso do samba.

Já no ambiente digital, as pegadas são diferentes dos signos porque fogem para a significação. A pegada digital não tem um significado em si. Pode ser destacada do corpo / sujeito de que emana, pode ser indexada, combinada com outras e calculada. Quando a pegada é detectada e interpretada, ela se torna um rastro. A rastreabilidade digital é produzida automaticamente durante um cálculo, codificação ou conexão, na maioria das vezes sem o conhecimento do emissor e do receptor.

A cultura é antes de tudo compartilhar

De acordo com Milad Doueihi, o digital torna-se cultura pela transição ou ultrapassagem do tecnicismo para usos culturais traçados na tecnologia digital, ou da computação e processamento de dados ao “digital”. O que ele chamou de “le numérique” (em francês) digital expressa a mudança no status da ciência da computação. Ela passou de um ramo da matemática a uma ciência autônoma para se tornar uma indústria e, recentemente, uma cultura. Essa nova cultura modificou a construção da sociabilidade e dos espaços que habitamos. O digital nos revela uma coisa considerável: cultura é antes de tudo compartilhar. Sem compartilhar, não pode haver cultura. Compartilhar é ter em comum, dividir e distribuir, postar, contar, participar. Portanto, a participação está no cerne da cultura digital; até podemos dizer que esta cultura não pode existir sem a participação.

Memória coletiva e reinvestida

Essa dinâmica entre conexão e compartilhamento, participação e conhecimento designa o mecanismo do processo de memória. Memorizar é reorganizar o conteúdo. Por muito tempo, a memória foi reduzida a uma capacidade psíquica de registrar a experiência do sujeito, sendo negada qualquer dimensão coletiva. Na era digital, não podemos fugir de sua dimensão técnica, especialmente porque as questões políticas e jurídicas surgiram com a digitalização do conteúdo e o aumento do volume de inscrições digitais. A apreensão desses problemas exige uma reflexão menos instrumental do que ambiental (sistêmica).

Em seu livro Rogue Archives: Digital Cultural Memory and Media Fandom (2016), Abigail De Kosnik examina a prática de arquivamento na transição da mídia impressa para a digital. Ela escreve que os “Estudos da Memória” remontam pelo menos ao Fedro, escrito por Platão no século 4; mas o campo em sua forma contemporânea foi iniciado por Maurice Halbwachs em seu livro Les Cadres Sociaux de la Mémoire (1952) [Os quadros sociais da memória], no qual Halbwachs articulou sua teoria da memória coletiva. Segundo ele, a memória é menos produto de uma apreensão do que de uma construção, onde a montagem dos fragmentos exige a retransmissão dos quadros sociais da linguagem, do espaço e do tempo. Halbwachs argumenta que, à medida que os indivíduos formam suas memórias na sociedade, é também na sociedade que eles se lembram, reconhecem e localizam suas memórias. Ele sugeriu que toda memória individual foi construída dentro de estruturas e instituições sociais. Ele afirmou que a memória privada individual é compreendida apenas por meio de um contexto de grupo.

E a memória no contexto do samba? Algumas escolas de samba possuem departamentos culturais que tem como objetivo de registrar memórias, experiências e testemunhas individuais de pessoas que tem trajetórias ligadas à escola de samba. Outros possuem arquivos em papel e/ou digitais e produzem conteúdo nos websites e nos canais de mídia social para falar sobre suas histórias, atividades e comunicar com o público.

A memória é importante para o samba. Um dos objetivos da construção da memória sobre o samba é salvaguardar seu conteúdo como uma nova cultura imaterial e promover sua difusão. O samba é um patrimônio nacional brasileiro e deve ser preservado institucionalmente. Salvar a memória é também não esquecer e educar indivíduos e grupos sobre cultura, identidade, tradição, história e presente.

Em seus trabalhos sobre memória, Louise Merzeau contrapõe a “memória reinvestida” – por indivíduos, grupos sociais e comunidades – a uma “memória metálica” descrita por Eni Orlandi (2010) como a memória da máquina.

Merzeau convoca os usuários digitais a construir uma “presença digital” (présence numérique), apropriando-se de seus rastros. Mas como reinvestir a memoria e construir a presenca digital?

Por exemplo fazer um webinar e ao mesmo tempo produzir conteúdo usando um editor de texto colaborativo online como Framapad, ou escrevendo no Twitter, ou editar e organizar ideias de forma colaborativa na forma de notas como Framemo; permite aos usuários de comunicar, não apenas sobre o tema do webinar e a apresentações dos palestrantes, mas também sobre suas próprias experiências, sobre a história do evento, seu modelo organizacional, os comportamentos e ações dos participantes, sua gestão, seus métodos de comunicação e arquivamento, etc. Essas formas mostram que o espaço público é um espaço de memória e que essa memória é de todos. A governança vem da criação de uma comunidade que vai administrar o recurso e garantir seu compartilhamento.

Transliteracia, re-documentarização e patrimonialização

Dessa forma, os usuários participam na elaboração de uma memória heurística, que lhes dá os métodos para reinventar seu uso. Esta abordagem de reapropriação pode ser resumida em três níveis:

• O primeiro está ligado às competências digitais dos indivíduos ou, mais especificamente, à transliteracia (para habitar o ambiente digital: habilidades para gerir equipamentos e interfaces; produzir e modificar conteúdo; entender a informação e analisar uma situação ou um processo; ter um pensamento crítico).

• O segundo é a re-documentarização (Salaün, 2007). Trata-se de trazer todos os metadados essenciais para a reconstrução dos conjuntos do documento e toda a rastreabilidade do seu ciclo. Nessa reconfiguração geral do acesso, os dados visuais desempenham um papel particular. As próprias imagens não são apenas documentos a serem reprocessados, mas também servem de modelo para o desenvolvimento de novos dispositivos de navegação e indexação de conteúdo. Essa reapropriação de rastros permite a extração de peças e seu registro em novas séries, possibilitando enquadrá-las em uma diversidade de comunidades, em memórias construídas como comuns.

• O terceiro está relacionado a uma patrimonialização explícita, na forma de um arquivo institucional de rastros digitais.

Conclusão

Então, o que aprendemos com a comparação entre as práticas de samba e o webinar em relação à participação?

– O webinar, assim como a sessão de samba, precisa ter objetivo e continuidade para não passar e ser esquecido. Enquanto os integrantes da escola de samba participam, por meio de sua dança, da escolha e da elaboração do tema do próximo carnaval, os integrantes do webinar participam por meio de suas interações (comentários, intervenções, questionamentos, desconexões) na produção do conteúdo e em seu sucesso ou sua falha.

– A escola de samba, bem como o webinar, precisa de membros registrados. Mas os membros não constituem um elemento suficiente para ter participação. Participar não significa apenas ser ativo, é também fazer parte de uma prática, uma cultura e um espaço compartilhados e contribuir na produção de conteúdos valorizados pela comunidade.

– O samba como modelo de participação mostra práticas sociais e culturais, estratégias de comunicação e a importância da construção da memória. A cultura do webinar, para constituir uma estrutura participativa, precisa fazer parte da transliteracia, superar a interação para o envolvimento e o engajamento na escrita, no compartilhamento e na memorização. Os rastros que constituem ou estão vinculados ao webinar, devem ser organizados em projetos de memória (particular, institucional ou coletivo).

– O webinar não pode ser entendido apenas como mais uma ferramenta on-line, mas como um lugar para habitar, favorecendo a participação, a inclusão, a governança e a elaboração da memória. Focando em o que podemos fazer e não apenas no que Eu posso fazer, e possibilitando a construção de comunidades e não apenas as identidades e reputações digitais; a participação pode transitar da capacidade de ler e escrever no digital para a de saber como programar nossa rastreabilidade.

Agradeco sua atenção .

1 Natal V.F. (2014). Cultura e Memória na Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro. Dissertação de mestrado em Sociologia e Antropologia, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

2Galinon-Mélénec B. (2020). The “signe-traces paradigm”. Fragments. Translation by Laura Kraftowitz, from “Fragments théoriques du signe-trace, propos sur le corps communicant”, in L’Homme trace, Perspectives anthropologiques des traces contemporaines, Paris, CNRS éditions, série L’Homme-trace, tome 1, 2011, p. 191-213.

Biologia e cultura digital: sistemas, vírus e trabalho colaborativo

Este texto foi apresentado na 1ª Jornada Acadêmica Virtual do curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário Uninorte, intitulada “Meio Ambiente & Cultura Digital em frente à Crise Mundial Sanitária”, em Rio Branco – Acre no Brasil em junho 2020.

Bom dia a todas, bom dia a todos,

Agradeço o convite de minha amiga estimada, a Professora Solange Maria Chalub Bandeira Teixeira, coordenadora pedagógica do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas no Centro Universitário Uninorte em Rio Branco-Acre. É uma honra para mim estar com vocês neste evento, a primeira feira acadêmica virtual do curso de Ciências Biológicas da Uninorte, que está acontecendo na cidade de Rio Branco, cidade amada, para compartilhar com vocês minha reflexão e ouvir as suas. Meus cumprimentos para a diretoria institucional do Centro Universitário, pelas professoras e pelos professores participantes neste evento, as professoras admiradas Janaína Almeida, Sandra Galeotti e Vera Reis, pelo professor Janeo Nascimento da Silva, amigo querido, pelos acadêmicos do sétimo período de Ciências Biológicas da Uninorte e pelos convidados.

Peço desculpa de não poder acompanhar todas as sessões por causa de fuso horário e de minhas responsabilidades familiares. Por entanto, desejo para cada uma e cada um de vocês, um webinário produtivo e uma boa saúde hoje e sempre.

Por que falamos hoje da biologia e da cultura digital? Qual é o relacionamento entre os dois? Qual é a vinculação com a pandemia de Covid-19? Como explicar este cruzamento, que eu escolhi no título de minha fala? Por que eu, que não sou biólogo, vou falar da biologia, e vocês, que não são da área da informação nem da comunicação, vão falar ou se interessar na tecnologia digital ou na cultura digital?

A minha reflexão hoje sobre a biologia e a cultura digital nesta conferência tem vários motivos. Fora do fato que eu conheci vocês, a turma da biologia, em Rio Branco-Acre em 2018 durante minha missão do ensino e da pesquisa no Brasil – e de sua presença importante e eficiente nas minhas palestras lá – a biologia e o digital têm muitas conexões. Eles enfrentam hoje, uma situação complicada imposta pela pandemia que afeta principalmente nosso organismo biológico e consequentemente nosso ambiente, nossa interação e nossa coexistência.   

Deveríamos ter falado sobre a biologia e a cultura digital desde um longo tempo, e não esperar a invasão do vírus Sars-Cov-2 em nossas sociedades e nossas vidas para pensar nisto. A pandemia nos lembra, que nós humanos, antes de seremos sujeitos digitais, usuários da tecnologia, somos animais (sociais) frágeis e vulneráveis aos ambientes onde vivemos. Ela nos alerta que não vivemos sozinhos na terra, mas com outras espécies, e que a nossa arrogância humana tem limite e tem consequências graves quando se torna exterminação, destruição e atrocidade. Ela nos lembra também de nossa animalidade fundamental, o “fundamento biológico de nossa humanidade”, como a antropóloga francesa Françoise Héritier a chamou.  

Os sistemas (pensamento sistemático)

Quando penso na biologia, a primeira coisa que me vem à cabeça é o sistema. A biologia é a ciência da vida. Ela cobre parte das ciências naturais e da história natural dos seres vivos. Ela expande-se do nível molecular, ao da célula, depois do organismo, ao nível da população e do ecossistema. Todas estas espécies são feitas de sistemas. E todas funcionam sistematicamente para dar a vida. A tecnologia digital é basicamente computacional e funciona também em sistemas. O ecossistema digital é feito de redes, de sistemas, que combinam seres humanos, objetos conectados, linguagens que permitem os usos sociais e culturais. Estes elementos interagem de modo animado para produzir uma realidade e fazer sentido. O ecossistema digital é dinâmico, como os organismos biológicos.

Urie Bronfenbrenner, psicólogo e pesquisador americano, divulga nos anos 1970-1980 sua teoria conhecida como “a ecologia do desenvolvimento humano”, segundo a qual os diferentes ambientes nos quais as pessoas participam influenciam diretamente sua mudança e seu desenvolvimento cognitivo, moral e relacional. Ele apresenta 5 níveis de sistemas que constroem o ambiente de cada organismo/indivíduo: Microsistema, Mesosistema, Exosistema, Macrosistema e Chronosistema.

Em oposição ao determinismo biológico, os interacionistas (movimento interacionista simbólico) estudaram a interação social e a construção da identidade em uma visão sistemática colocando o indivíduo no sistema dele para entender seu comportamento e seu lugar na sociedade. A comunicação, como a psicologia social, define o indivíduo em relação ao sistema onde ele está interagindo.

Em biologia, a gente fala de moléculas portadoras de informações quando nos referimos às características funcionais do DNA. Os sistemas veiculam a informação de um componente para o outro para funcionar e comunicar. Seja no interior de um sistema ou em relacionamento entre dois sistemas ou mais, é a informação que mantém a atividade do sistema ou permite a sua transformação.  

No ecossistema digital a informação é binária (digital) e se constrói em vários níveis: é uma pegada, é um rastro, é um dado, é um metadado até chegar à informação. Se torna um conhecimento quando ela faz parte de uma estrutura cientifica aprovada e adquira a habilidade para explicar e mudar fenômenos e situações. Segundo Louise Merzeau, Professora e pesquisadora francesa, que tem trabalhos relevantes sobre a mediologia, a memória, a cultura e os rastros digitais, a informação e o processamento de dados digitais nos envolvem hoje. São muitos objetos conectados que nos cercam, e outros que vão ser conectados com informação, com dados, com cálculo, sendo necessário avançar para um pensamento ambiental, ecológico para pensar e entender a cultura digital. Este processamento me faz pensar de novo na biologia. A informação que circula dentro dos sistemas biológicos (humanos, animais, naturais etc.) não é somente uma entidade para comunicar, mas também para preparar ou permitir a mutação e a evolução do organismo no ambiente dele. Sem se colocar na posição do biologismo ou mesmo de fatalismo, os trabalhos de Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, sobre a Teoria da Evolução, mostram que a luta pela existência se refere às diferentes habilidades dos indivíduos para sobreviver e as adaptações são sempre relacionadas a um ambiente em mudança. Os dois antropólogos e biólogos britânicos admitem que, na maioria dos casos, órgãos e instintos exibem variações infinitesimais que influenciam o vigor dos organismos e sua “chance de sobrevivência”. Eles deduzem que há uma tendência para as espécies formarem novas variedades indefinidamente e as perpetuarem. A seleção natural, como eu entendo, se refere à interação entre a espécie e o ambiente, mas ultrapassa a consciência e o controle do organismo para administrar e gerir suas condições. E para dizer que a força e a aptidão do dinamismo da mutação e da evolução agem em sistemas onde o indivíduo, como organismo biológico, pode influenciar e ser influenciado pelos outros componentes (biológicos, naturais, políticos, educacionais, sociais, artefatos etc.). Eu exponho este detalhamento sobre a “seleção natural” para pensar o “humanismo digital”[1] em sua “mutação antropológica” que nos leva a repensar o que é o humano[2] na era digital e pandêmica. A relação com a informação digital nos mostra que quem constrói no ambiente digital não é só o humano usuário, mas há logicas técnicas autônomas inteligentes que produzem conosco nossos rastros, que os tratam, que os analisam e que abrem ou fecham caminhos e oportunidades. Esta inteligência artificial precisa ser questionada pelos cientistas para não perder o controle sobre a nossa sobrevivência. Voltando a pandemia neste contexto, ela nos mostra o caráter primordial da informação para resistir e sobreviver. A informação científica certa em oposição à informação fake ou errônea. O historiador Yuval Noah Harari[3] diz em uma entrevista recente com a BBC[4], que a informação é o combustível virtual para tudo o que fazemos nos níveis nacional e local. Esta pandemia exige uma cooperação internacional. Eu adiciono, ela precisa também dos biólogos para ajustar, confirmar e orientar.

Vírus e trabalho colaborativo

O vírus Sars-Cov-2 apareceu brutalmente em nossas sociedades. O vírus colocou a nossa civilização e a nossa existência em perigo. Este vírus é novo, mas o vírus como entidade, existia antes de nossa existência humana. A idade dele talvez volte para a idade da vida na terra.

A palavra “vírus” designa uma partícula microscópica, um agente infeccioso que só pode se espalhar se encontrar um hospedeiro[5]. Alguns vírus infectam humanos, outros infectam animais e outros infectam plantas. Mas nem todos eles causam doenças[6]. Hoje a humanidade está preocupada com a desaceleração da circulação de novo coronavírus e está investindo e se focando na produção da vacina. Mas por que não pensamos na origem deste vírus? De onde vem? Quais são os erros que permitiram a sua transmissão? Didier Sicard, especialista em doenças infecciosas na Franca, fala da indiferença no ponto de partida desta pandemia. “Como se a sociedade estivesse interessada apenas no ponto de chegada: a vacina, os tratamentos, a reanimação. Para que não recomeça deve-se considerar que o ponto de partida é vital”, ele diz. Esta missão precisa um trabalho colaborativo pluridisciplinar e internacional. Isso não é novo para os biólogos, onde colaboração e a coletivismo fazem parte de seus hábitos e atitudes. O trabalho colaborativo é também um atributo da cultura participativa, onde os mais experientes transmitem seus conhecimentos aos novatos. A cultura digital é fundamentalmente colaborativa. Ela se torna participativa quando se refere à construção da memória digital, para permitir o armazenamento de rastros, seus compartilhamentos em qualquer contexto técnico e temporal para fins uteis, e finalmente para combater o esquecimento. É neste sentido que o digital se torna terra de projetos colaborativos, onde os biólogos têm que achar seus lugares. Alguns já fizeram. Tem um projeto que chamou minha atenção, que se chama “Bio Num” ou “Unidade de Ensino de Cultura Biológica Digital”[7] feito pelos estudantes de licenciatura em Ciências Biológicas na Universidade Paris Diderot na França. O objetivo geral é ensinar de maneira diferente na universidade: ensinar, em qualquer nível, é entender mais profundamente o conhecimento transmitido. Em outras palavras, o projeto, que é um website com um blog, é feito para transmitir conhecimento biológico para todos. Os artigos têm conteúdo biológico diversificado que trata temas e problemas da área para o grande público. O trabalho incita os professores e os estudantes a colaborar e escrever e transmitir a biologia diferentemente. A pandemia hoje empurra vocês, biólogos, a inventar seus cotidianos para transformar o nosso, e achar novos caminhos para manter nossa coabitação com a natureza. Quem conhece a natureza e seus fenômenos mais de que vocês?

Por que a biologia e a cultura digital no título de minha palestra? Talvez, eu digo, é para pensar no papel da biologia e dos biólogos na era digital, para produzir, divulgar e arquivar uma informação científica e de referência para todos. Esta missão, esta informação, pode constituir o nosso meio para lutar em tempos de epidemias e de pandemias, mas também pode achar a nossa orientação na era pós-pandemia.

Muito obrigado pela sua atenção.   


[1] Noção proposta pelo historiador das religiões americano Milad Doueihi.

Doueihi M. (2011). Um humanisme numérique. Communication & Langages, vol. 1, n° 167, p. 3-15.

[2] Vitali-Rosati M. (2020). Pourquoi on ne peut plus être humaniste, Culture numérique, https://blog.sens-public.org/marcellovitalirosati/pourquoi-on-ne-peut-plus-etre-humaniste/

[3] BBC Hardtalk (2020). Coronavirus: Yuval Noah Harari, philosopher and historian, on the legacy of Covid-19, https://www.youtube.com/watch?v=gfVrin7Ybp8

[4] British Broadcasting Corporation

[5] Schlegel T. (2020). Didier Sicard : Il est urgent d’enquêter sur l’origine animale de l’épidémie de Covid-19, France Culture, https://www.franceculture.fr/sciences/didier-sicard-il-est-urgent-denqueter-sur-lorigine-animale-de-lepidemie-de-covid-19

[6] Idem.

[7] Bio Num, https://bionum.univ-paris-diderot.fr/

Fighting the diktat of a pandemic through a fair digital environment

Fighting the diktat of a pandemic through a fair digital environment

This text, written by Doctor Hadi Saba Ayon, is the translation from French of his intervention in the web chat “The invisibility of people with disabilities in the context of Covid-19”, organized by the International Network on disability production process (RIPPH), April 29, 2020.

Could digital culture save us in the times of pandemic – and later on- in the post-pandemic era? How do we grasp our individual and collective actions in this “place of links” (Merzeau, 2013) with its inscribed traceability in a computational dimension?

Once again, we find ourselves face to face with digital technology, questioning its capacity to provide answers to our uncertainties. Could it be a “new civilizing process” (Doueihi, 2018)? Furthermore, has SARS- CoV-2 triggered a process of “uncivilization”? Do the thousands of deaths around the world[1]; the hundreds of testimonies of families and organisations on abandoned disabled and vulnerable loved ones and the heartbreaking stories of triage of patients[2] recreate a “humiliation processes” (Smith, 2001) against the most vulnerable, in particular those suffering from disabilities?

Digital culture and essential animality

Seduced by the promises of technology of a better future, we were taken aback by the digital. Historian Milad Doueihi described this fascination as “a new civilising process”, borrowing the term from the German sociologist Norbert Elias. The latter defined ” Civilising Process” as a correspondence between the historical process of seizing power by a centralised state on the one hand, and the self-control exercised by individuals over their spontaneous violence, their instincts and their affects- on the other.

Elias described humans (from European societies) of the twentieth century as “late barbarians”. The last were described by Doueihi as being “modern savages” submitted to a “digital humanism”, or:

“The result of converging complex cultural heritage with a technique that has become a place of unprecedented sociability”.

As far as Doueihi is concerned, digital technology defines as:

“A culture in the sense that it sets up a new global context, and because digital – despite a strong technical component we must always question and constantly monitor because it is the agent of an economic will – has become a civilisation distinguished by its ability to alter our vision of objects, relationships and values. The new perspectives that characterise it introduce into the field of human activity”. 

All of a sudden, SARS-CoV-2 invades our world and sends us back to our fundamental animality. Stéphane Audoin-Rouzeau, a WWI historian, writes:

“We remain homo-sapiens belonging to the animal world, vulnerable to diseases against which our fighting capacities remain rustic given our supposed technological power”.

Against this backdrop, could we be facing a process of “uncivilization” triggered by SARS-CoV-2? What is likely to cause such an upheaval? Can we find answers “on the side of lowering the calculability of social risks, increasing dangers, increasing uncertainties, which can occur in times of social crisis”, epidemic or pandemic? It is difficult for us to answer this just yet. 

Overwhelmed by their physical or functional differences throughout their life, a disabled person finds themself in the digital environment, in times of a pandemic, on equal terms with Internet users. The body is at the heart of social interaction: we live, and we build ourselves through our body. However, at present, this social (physical) interaction – is severely limited – because of Covid-19. Bodies become suspicious in public and even private spaces. They are inspected, evaluated, often sidelined, abandoned, sometimes even ousted. Sars-Cov-2, like AIDS, disrupts the relationship with others, dims the practices that build trust, and reinforces the constraints towards the contaminating agent. For anthropologist Françoise Héritier, the solutions found by humanity for illnesses like AIDS emerged from restraint rather than the need to convince.     

Such a conclusion may seem despairing because the underlying constraints are biased. However, our experience with incurable infectious diseases, shows that the societies tend to protect themselves by fleeing, or even by sidelining, abandoning, expelling or killing the contaminating agent.

The body of the disabled person, already a source of social stigma, suddenly becomes equal to other bodies. What matters (alarms) is the presence of another, at a distance far enough to be perceived as reassuring (less than 1 meter). Thus, all bodies become equal in their vulnerability to fear, sickness, and death.

During the current crisis, the digital is providing our community with leeway, thus enabling us to function. Whether it is to inform, communicate, telecommute, study, shop, or manage administrative work: more than ever, the digital proves to be an environment for social processes. Due to physical distancing, individuals are forced in their interactions to abandon or reduce their face-to-face relationships when faced with the risk of becoming infected or infecting others. The body becomes suspicious. By isolating it from the public space, we deprive it of its symbolic social interaction (as defined by George Herbert Mead), since symbolic interaction initiates a process of interpretation and definition by which some establish the meanings of the actions of others and redefine their actions.

In digital environments, all interaction produces traces, mostly involuntary ones. The latter avoid all utterance and produce information on our behaviour. According to Louise Merzeau (2013), traces resist interpretations of semiology because they stem from another logic. Everything they carry is the product of processing: “computer processing of instructions, algorithmic processing of data, economic and strategic processing of databases of intentions”. Today digital businesses tend to impose marketing logic through the model of personal branding, profiling and e-reputation. “Opposing a publication function to this advertising acceptance of traces represents a major political and cultural issue” (Merzeau, 2013).

Let us keep in mind that the Internet is an opportunity for democracy, thanks to the egalitarian foundations that presided over its birth and development (Cardon, 2010). However, user communities still struggle with access, accessibility and reappropriation of traces. How could disabled people, consequently, organise their digital habitat while guaranteeing full social participation? 

Equipment, access, accessibility 

The Convention on the Rights of Persons with Disabilities (UN, 2006) recognises:

“The importance of accessibility to the physical, social, economic and cultural environment, to health and education and to information and communication, in enabling persons with disabilities to fully enjoy all human rights and fundamental freedoms”.

The access is therefore an essential condition for the exercise of human rights.

By positioning the notion of access in the conceptual domain of the environment to measure its impact on social participation, Patrick Fougeyrollas and his fellows (2015), Patrick Fougeyrollas and his colleagues (2015) presented access as the intersection between six dimensions and components of the environment. The dimensions are as follows: availability; accessibility; acceptability; affordability; usability, and adaptability. So the issue is not reduced to access to the IT tool, the network provider and wired or wireless access. We are facing a phase requiring digital literacy, learning and expertise, imperative to the use of technology and the administration of content.

Many studies showcase limited access to digital technology faced by diverse populations, including disabled people.  One recent study called Perspectives of Young Adults on Receiving Telepsychiatry Services in an Urban Early Intervention Program for First-Episode Psychosis: A Cross-Sectional, Descriptive Survey Study, published on March 2020 by a group of Canadian researchers (Montréal). The study shows the existing of limited knowledge on telepsychiatry in specialized services for first-episode psychosis (FEP), “despite its potential for improving service access and engagement”.

It points out that more than half of the participants (59%) “rarely or never used mainstream video chat (e.g., Facetime)”. The study showed that “despite experiencing obstacles to attending appointments and expressing receptivity towards telepsychiatry, participants did not have access to these services. It is important to provide education to clinicians on the potential of telepsychiatry to improve service access”.

In the era where digital technology affects personal and environmental factors and everyone’s life habits, the full social participation of disabled people should question usage rather than access. What can we do with and in digital so that our presence is not limited to one or more identities exploited by trackers (governments, companies, individuals, and others)? We are facing a socio-technical ecosystem where the user is the centre and the brain. It is therefore essential, for the disabled person as well as for any other person, to create methods and find ways to develop social links, self-esteem, control of one’s life and time, quality of life, and to build online communities. How to think digital traces in an approach that no longer refers to an identity but to an ability to manage communication?

The “Digital divide” concept implies that inclusion is the answer. The web was initially designed to work for everyone, regardless of hardware, software, language, location or ability. It means that the web should be accessible to people with various range of hearing, movement, sight and cognitive abilities..

According to the World Wide Web Consortium (W3C):

“When websites and web tools are properly designed and coded, people with disabilities can use them”.

More specifically, people can: perceive, understand, navigate and interact with the web and contribute to it. Access to devices and the Internet, the adaptation of the workplace are not enough to accomplish network social participation. Digital is not just a technical and economic issue but contributes to the construction of a social project.

Putting their physical or functional differences aside, a disabled person can get involved in collaborative production projects to meet their (individual and collective) needs. According to Serge Proux (2014), this (collaborative) “form of contribution” refers us to a universe of modest, horizontal exchange relations between peers where contributors are engaged in:

“A universe of commonly shared normative expectations. There are shared values between contributors like freedom of expression, the logic of giving, the need for cooperation”.

Co-build memories

How to operate actively in the knowledge society? How to bring out a new “living together”? The current pandemic reminds us that we are drowning in information. The latter is everywhere, reliable and fake, archived and poorly documented, multimedia. If accessing it is easy, the process of using and turning it into knowledge is not a given. Digital has turned the concept of reception upside down. The diagram transmitter-receiver (known in Information Science) no longer applies to networked information, at least on the Internet user. The latter is no more than a receiver of information (as was the case with mass media), but he produces it, he seeks it, shares it, creates networks, participates in conversations and builds communities.

Today, we are interested in two logics among others in digital uses in a pandemic period: the first is passive, receives/consumes information, likes and shares it (especially on social networks and chat applications). The second, meanwhile, produces / co-develops information, stores it and shares it (on web pages, collaborative writing platforms, blogs.). The transition from receiving information to producing and sharing it requires thinking digital not only as a medium but also as an environment to be lived in and improved. This, in turn, calls for the development of digital skills but above all a vision of an appropriation of digital traces in “intelligent” environments, which can be used to train us, to find and understand information and to analyse situations or processes. The emerging post-pandemic world begs us to exchange, write and memorise collectively. It is in this way that disabled people, as well as all other people, appropriate their digital traces in architectural structures that allow reading and writing attached to the moment, but also extracted from other temporalities.

The building or co-building an “intelligent” digital environment means developing a digital memory, which can increase individual and collective power and above all, action on the environment to transform it when necessary.

Ends.


[1] Check the article of Jérôme Val in France Inter « Coronavirus : a-t-on oublié les foyers de handicapés ? », published on 15 April 2020, https://www.franceinter.fr/coronavirus-a-t-on-oublie-les-foyers-d-handicapes.

Check « L’alerte de 48 associations sur le sort des personnes handicapées, ‘oubliées de la pandémie’ de coronavirus », published on 04 April 2020, https://www.lejdd.fr/Societe/lalerte-de-48-associations-sur-le-sort-des-personnes-handicapees-oubliees-de-la-pandemie-de-coronavirus-3959794

Check the article of Emely Lefrançois in La presse « Personnes en situation de handicap : les milieux de vie dont on ne parle pas », published on 20 April 2020, https://www.lapresse.ca/debats/opinions/202004/19/01-5270046-personnes-en-situation-de-handicap-les-milieux-de-vie-dont-on-ne-parle-pas.php

Check the article of Autistics for Autistics Ontario intitulé “Intellectually disabled Canadians are dying in residential institutions: What’s happening & what can be done”, published on 17 April 2020, https://a4aontario.com/2020/04/17/intellectually-disabled-canadians-are-dying-in-residential-institutions-whats-happening-what-can-be-done/

[2] Check the article of Vincent Olivier in L’Express « Covid 19 : va-t-on « sacrifier » des malades en réanimation ? », published on 12 March 2020, https://blogs.lexpress.fr/le-boulot-recto-verso/2020/03/12/covid-19-va-t-on-sacrifier-des-malades-en-reanimation/

Check the article of Eric Jozsef in Libération « Covid-19 : la sélection des malades divise le corps médical italien », published on 19 March 2020, https://www.liberation.fr/planete/2020/03/19/la-selection-des-malades-divise-le-corps-medical-italien_1782400


References

– Cardon D. (2010). La Démocratie Internet, Promesses et limites, Seuil, Paris.
– Doueihi M. (2018). Le numérique, un nouveau processus civilisateur. Le Monde, 24 janvier 2018, https://www.lemonde.fr/idees/article/2018/01/24/le-numerique-un-nouveau-processus-civilisateur_5246335_3232.html
– Doueihi M. (2011). Pour un humanisme numérique, Seuil, Paris.
– Fougeyrollas P., Boucher N., Fiset D., Grenier Y., Noreau L., Philibert M., Gascon H., Morales E., Charrier F. (2015). Handicap, environnement, participation sociale et droits humains : du concept d’accès à sa mesure. Revue Développement humain et changement social, avril 2015, p. 5-28.
– Lal Sh., Abdel-Baki A., Sujanani S., Bourbeau F., Sahed I., Whitehead J. (2020). Perspectives of Young Adults on Receiving Telepsychiatry Services in an Urban Early Intervention Program for First-Episode Psychosis: A Cross-Sectional, Descriptive Survey Study. Frontiers Psychiatry, 11:117, doi: 10.3389/fpsyt.2020.00117
– Lepalec A., Luxereau A., Marzouk Y. (1997). Entretien avec Françoise Héritier. Journal des anthropologues, n° 68-69, p. 21-33.
– Merzeau L. (2013). L’intelligence des traces. Intellectica, vol. 1, n° 59, p. 115-135.
– Newton T. (2008). (Norbert) Elias and Organization: Preface. Organization, 8(3), p. 459-465.
– Paillé S. (2017). La sociologie de Norbert Elias et « l’effondrement de la civilisation » en Allemagne. Cycles Sociologiques, vol. 1, n° 1, https://cycles-sociologiques.com/publications__trashed/sabrina-paille-la-sociologie-de-norbert-elias-et-leffondrement-de-la-civilisation-en-allemagne/
– Proulx S. (2014). Enjeux et paradoxes d’une économie de la contribution, dans La contribution en ligne : pratiques participatives à l’ère du capitalisme informationnel, Presse de l’Université du Québec, Québec.
– Smith D. (2001). Organizations and Humiliation: Looking beyond Elias. Organization, vol. 8, n° 3, p. 537-560.