Das práticas do Samba aos esquemas do webinar: participação como compartilhamento, governança e memória

Essa palestra foi apresentada no Congresso Internacional de Tecnologias e Gestão do Conhecimento do Território de Irecê organizado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA-Irecê) e Universidade do Estado da Bahia (UNEB-Irecê). CITGC 2021 31 de Maio 02 de Junho | Irecê-BA, Brasil

Introdução

Bom dia a todos,

É um prazer estar aqui com vocês. Quero agradecer o esforço de cada uma e de cada um para organizar este congresso, bem como a nossa mesa que recebe uma presença valiosa do Sudeste Asiático, para discutir temas sobre a tecnologia digital, a cultura, a educação e os desafios sociais.

Hoje trago comigo, na minha apresentação, muitas dúvidas e algumas descrições e comparações. Procuro pensar os processos de participação, de compartilhamento, da governança e da memória. Quero falar de um lado, sobre o Samba, como modelo cultural e artístico de participação entre artistas, músicos e “fandom” (fãs); e do outro lado do webinar, como modelo acadêmico e social de participação entre organização, especialistas ou profissionais e membros. Como a pandemia de Covid-19 forçou as pessoas a minimizarem sua comunicação face a face e substituí-la pela comunicação digital, o webinar, como uma conferência ou reunião on-line, assume um grande lugar e suas práticas são desenvolvidas no domínio acadêmico, bem como em muitos setores profissionais. Neste contexto, o Carnaval teve de ser cancelado este ano no Brasil, e sua celebração foi substituída por diferentes práticas e eventos artísticos e culturais digitais. Existe alguma conexão ou semelhança entre o samba e o webinar? Caso afirmativo, o que isso nos ensina?

Por que falamos do Samba em um congresso especializado em tecnologias e gestão do conhecimento? É porque gostamos do samba? É porque é tempo de pandemia e sentimos falta de eventos do samba? Essas podem ser explicações pessoais dos motivos. A motivação científica da nossa escolha é que entendemos o Samba como uma cultura participativa e suas práticas como um modelo de participação muito interessante para descrever e estudar. Por isso perguntamos: qual é a relação entre o samba e a cultura digital? Mais especificamente, qual é a ligação entre a escola de samba e a memória digital? Podemos comparar a escola de samba a um curso online, um webinar ou um exercício colaborativo? Podemos usar essa comparação para definir a noção de participação e ver como isso ajuda na gestão do conhecimento?

Escola de samba

Em um artigo intitulado “Alguns critérios poéticos e sociais para o design educacional”, o cientista da computação e educador sul-africano e americano Seymour Papert escreveu em 1975, que o aprendizado sobre e por meio da tecnologia pode ocorrer em ambientes automotivados e apoiados pela comunidade, como a escola de samba do Brasil. Ele escreve:

Se você aparecesse em uma escola de samba em uma típica noite de sábado, você iria levá-la para um salão de dança. A atividade dominante é a dança, com o acompanhamento esperado de beber, conversar e observar a cena. (…). Você logo começaria a perceber que há mais continuidade, coesão social (…). A questão é que a Escola de Samba tem outro propósito além da diversão daquela noite em particular. Este propósito está relacionado com o famoso Carnaval que dominará o Rio e em que cada Escola de Samba assumirá um segmento da longa procissão de dança de rua com mais de vinte e quatro horas de duração. Este segmento será uma apresentação elaboradamente preparada, decorada e coreografada de uma história, tipicamente um conto folclórico reescrito com letras, música e dança compostas recentemente durante o ano anterior. Portanto, vemos as funções complexas da Escola de Samba. Enquanto as pessoas vêm para dançar, elas participam simultaneamente da escolha e da elaboração do tema do próximo carnaval; as letras cantadas entre as danças são propostas de inclusão; a dança é também a audição, ao mesmo tempo competitiva e de suporte, para os papéis principais, o ensaio e a escola de treinamento para dançarinos em todos os níveis de habilidade (a tradução em portugues é nossa).

Em seu livro, co-escrito com Mizuki Ito e danah boyd, e intitulado Participatory Culture in a Networked Era: A Conversation on Youth, Learning, Commerce, and Politics (2015), Henry Jenkins fala sobre o samba no Rio de Janeiro enquanto aborda a noção de cultura participativa. Ele escreve:

Quando fui ao Rio, há alguns anos, visitei uma das escolas de samba e saí com uma noção clara do que Papert estava falando. Em qualquer momento, existem muitos modos diferentes de engajamento: alguns assistindo e observando, esperando para participar, enquanto outros estão na pista de dança e outros são muito mais periféricos, assistindo da varanda e mandando mensagens para seus amigos. Existem locutores em um sistema de som solicitando ativamente a participação, persuadindo os membros tímidos da comunidade a irem para a pista de dança. A certa altura, um grupo de pessoas com o que parecia ser uniforme de polícia ou militar avançou pelo espaço, agarrando pessoas que suspeitavam não contribuírem para o esforço coletivo. Ansioso para não ser “detido”, perguntei ao meu hospedeiro o que fazer, e ele sugeriu colocar uma camiseta festiva que recebemos na porta. Ele percebeu que, mesmo se eu não pudesse dançar, eu poderia pelo menos ser decorativo. Este foi um grande lembrete das muitas maneiras diferentes de os participantes podem contribuir e da necessidade às vezes de convidar, encorajar e, neste caso, até obrigar a participação em vez de tomá-la como certa (a tradução em portugues é nossa).

Webinar

Agora vamos falar sobre webinar ou web conferência. O termo “webinar” é uma combinação da palavra web e da palavra seminário/seminar, significando uma apresentação, palestra ou workshop que é transmitido pela web. De acordo com o dicionário Merriam-Webster, é “uma apresentação educacional online ao vivo durante a qual os telespectadores participantes podem enviar perguntas e comentários”. Na Wikipedia, lemos que o uso inicial se referia puramente à transmissão e ao consumo de streaming de áudio e vídeo pela World Wide Web. Agora é provável que os webcasts permitam a resposta do público às pesquisas, comunicação de texto com apresentadores ou outros membros do público e outras comunicações bidirecionais que complementam o consumo do conteúdo de áudio / vídeo transmitido.

Para ter um webinar, primeiro precisamos de conexão à Internet e algumas tecnologias que incluem software e funcionalidades. Em segundo lugar, precisamos de um hospedeiro: uma organização ou um indivíduo para fornecer acesso, regras, cadastro, gravação e gerenciamento.

Um webinar, como o que temos hoje, precisa ser preparado: técnicas, gerenciamento de tempo, palestrantes, público, marketing e um conjunto de regras para funcionar. Os participantes precisam de contas (ou e-mails) para se cadastrar e se conectar por meio de um link, para respeitar as regras para que possam interagir (com os palestrantes ou entre eles).

Um webinar tem um objetivo. Primeiro, ele substitui a interação face a face por qualquer motivo (por causa da pandemia nos dias de hoje). Em seguida, tem como objetivo apresentar palestras sobre um ou diferentes tópicos e discuti-las. As interações entre os participantes variam. Podem limitar-se a escrever mensagens (questões e comentários) na sala de bate-papo, ou a realizar intervenções orais ou audiovisuais. Os graus de envolvimento de cada um variam em função das suas ações, dos rastros digitais que produz ou deixa no ambiente digital que constitui o webinar, mas também fora deste ambiente (falar ou escrever sobre o webinar em outras plataformas). O webinar tem uma duração: começa e termina em horários específicos. Podemos registrar e especificar os termos de seu acesso, para que possamos verificar seu conteúdo a qualquer momento e de qualquer lugar.

De um sistema de símbolos a um sistema de rastros

As escolas de samba são umas das instituições culturais mais famosas do Brasil. Estão presentes dentro das comunidades, principalmente as afro-americanas. O samba é resultante de estruturas musicais europeias e africanas, mas foi com os símbolos da cultura negra brasileira que ele se alastrou pelo território nacional, tornando-se uma das principais manifestações culturais populares.

O samba é uma manifestação cultural. É mais de que um ritmo, uma dança. É um evento popular. Uma cultura. Transmite valores, história e narrativas de memória. Segundo Vinícius Ferreira Natal (2014)1, as expressões carnavalescas possuem papel importante na constituição do espaço urbano e cultural. Não é o caso do webinar, onde humanos e fatores técnicos e comunicativos coabitam e se trocam para produzir dinâmica, conteúdo, conhecimento e realidade? Os participantes do webinar e suas práticas não elaboram somente o ambiente digital e participam da editorialização do conteúdo, mas também da própria realidade.

O samba, como cultura, deve ser estudado em sua complexidade. Não podemos analisar agora todos esses fatores, mas vamos nos concentrar em um: a comunicação. Seguindo Edward T. Hall, as atividades de vida são interações dinâmicas do organismo com seus ambientes. Essa interação é influenciada pela presença de outros organismos do mesmo tipo, suas características variam, conforme Gregory Bateson, que fala sobre a análise interacional do comportamento humano. Ele cria o conceito de cismogênese, distinguindo entre dois tipos de processos de diferenciação (cismogênese): o primeiro é simétrico e o segundo é complementar. Em relações simétricas, os parceiros se envolvem em uma espiral de magnitude crescente do mesmo comportamento, enquanto em relacionamentos complementares os parceiros juntos formam uma entidade bipolar.

Esses dois níveis de relações podem ser vistos na escola de samba. Por exemplo, entre o Mestre da bateria e seus percussionistas (relação complementar). É o mesmo no webinar? Nós pensamos que sim. Esses dois níveis de relações podem ser vistos na comunicação entre os organizadores e os membros de um webinar, bem como entre o último e os palestrantes principais. Também pode descrever o feedback que os membros podem produzir após o webinar, dando comentários, notas de avaliação ou até mesmo escrevendo sobre o evento em vários ambientes digitais.

Entendemos a cultura do samba como um sistema de símbolos vivenciado e tratado pelos sujeitos sociais. Mostra práticas e valores comuns compartilhados entre os membros da comunidade. Eles podem ser descritos como sinais. Os movimentos e comportamentos nos ambientes de samba podem ser definidos como símbolos seguindo Erving Goffman (1973) ou “signos-rastros” seguindo Béatrice Galinon-Mélénec (2011).

De acordo com Galinon-Mélénec (2020)2:

Tudo é um signo (o corpo e todo o material fora do corpo, ou seja, os humanos e seus ambientes humano e não humano), e todos os signos são o resultado de interações. Nessa interpretação, ao conectar um signo àquilo que o produziu, o signo torna-se um “signo-rastro”. Essa associação conecta rastros do passado às suas interpretações presentes. Nesse sentido, todo signo é signo-rastro do processo que o construiu. Os signos-rastros não são apenas numerosos, mas em movimento perpétuo (a tradução em portugues é nossa).

Os símbolos comportamentais podem se tornar signos-símbolos e promover o sentimento de pertencimento a uma comunidade, que compartilha os mesmos valores, como é o caso do samba.

Já no ambiente digital, as pegadas são diferentes dos signos porque fogem para a significação. A pegada digital não tem um significado em si. Pode ser destacada do corpo / sujeito de que emana, pode ser indexada, combinada com outras e calculada. Quando a pegada é detectada e interpretada, ela se torna um rastro. A rastreabilidade digital é produzida automaticamente durante um cálculo, codificação ou conexão, na maioria das vezes sem o conhecimento do emissor e do receptor.

A cultura é antes de tudo compartilhar

De acordo com Milad Doueihi, o digital torna-se cultura pela transição ou ultrapassagem do tecnicismo para usos culturais traçados na tecnologia digital, ou da computação e processamento de dados ao “digital”. O que ele chamou de “le numérique” (em francês) digital expressa a mudança no status da ciência da computação. Ela passou de um ramo da matemática a uma ciência autônoma para se tornar uma indústria e, recentemente, uma cultura. Essa nova cultura modificou a construção da sociabilidade e dos espaços que habitamos. O digital nos revela uma coisa considerável: cultura é antes de tudo compartilhar. Sem compartilhar, não pode haver cultura. Compartilhar é ter em comum, dividir e distribuir, postar, contar, participar. Portanto, a participação está no cerne da cultura digital; até podemos dizer que esta cultura não pode existir sem a participação.

Memória coletiva e reinvestida

Essa dinâmica entre conexão e compartilhamento, participação e conhecimento designa o mecanismo do processo de memória. Memorizar é reorganizar o conteúdo. Por muito tempo, a memória foi reduzida a uma capacidade psíquica de registrar a experiência do sujeito, sendo negada qualquer dimensão coletiva. Na era digital, não podemos fugir de sua dimensão técnica, especialmente porque as questões políticas e jurídicas surgiram com a digitalização do conteúdo e o aumento do volume de inscrições digitais. A apreensão desses problemas exige uma reflexão menos instrumental do que ambiental (sistêmica).

Em seu livro Rogue Archives: Digital Cultural Memory and Media Fandom (2016), Abigail De Kosnik examina a prática de arquivamento na transição da mídia impressa para a digital. Ela escreve que os “Estudos da Memória” remontam pelo menos ao Fedro, escrito por Platão no século 4; mas o campo em sua forma contemporânea foi iniciado por Maurice Halbwachs em seu livro Les Cadres Sociaux de la Mémoire (1952) [Os quadros sociais da memória], no qual Halbwachs articulou sua teoria da memória coletiva. Segundo ele, a memória é menos produto de uma apreensão do que de uma construção, onde a montagem dos fragmentos exige a retransmissão dos quadros sociais da linguagem, do espaço e do tempo. Halbwachs argumenta que, à medida que os indivíduos formam suas memórias na sociedade, é também na sociedade que eles se lembram, reconhecem e localizam suas memórias. Ele sugeriu que toda memória individual foi construída dentro de estruturas e instituições sociais. Ele afirmou que a memória privada individual é compreendida apenas por meio de um contexto de grupo.

E a memória no contexto do samba? Algumas escolas de samba possuem departamentos culturais que tem como objetivo de registrar memórias, experiências e testemunhas individuais de pessoas que tem trajetórias ligadas à escola de samba. Outros possuem arquivos em papel e/ou digitais e produzem conteúdo nos websites e nos canais de mídia social para falar sobre suas histórias, atividades e comunicar com o público.

A memória é importante para o samba. Um dos objetivos da construção da memória sobre o samba é salvaguardar seu conteúdo como uma nova cultura imaterial e promover sua difusão. O samba é um patrimônio nacional brasileiro e deve ser preservado institucionalmente. Salvar a memória é também não esquecer e educar indivíduos e grupos sobre cultura, identidade, tradição, história e presente.

Em seus trabalhos sobre memória, Louise Merzeau contrapõe a “memória reinvestida” – por indivíduos, grupos sociais e comunidades – a uma “memória metálica” descrita por Eni Orlandi (2010) como a memória da máquina.

Merzeau convoca os usuários digitais a construir uma “presença digital” (présence numérique), apropriando-se de seus rastros. Mas como reinvestir a memoria e construir a presenca digital?

Por exemplo fazer um webinar e ao mesmo tempo produzir conteúdo usando um editor de texto colaborativo online como Framapad, ou escrevendo no Twitter, ou editar e organizar ideias de forma colaborativa na forma de notas como Framemo; permite aos usuários de comunicar, não apenas sobre o tema do webinar e a apresentações dos palestrantes, mas também sobre suas próprias experiências, sobre a história do evento, seu modelo organizacional, os comportamentos e ações dos participantes, sua gestão, seus métodos de comunicação e arquivamento, etc. Essas formas mostram que o espaço público é um espaço de memória e que essa memória é de todos. A governança vem da criação de uma comunidade que vai administrar o recurso e garantir seu compartilhamento.

Transliteracia, re-documentarização e patrimonialização

Dessa forma, os usuários participam na elaboração de uma memória heurística, que lhes dá os métodos para reinventar seu uso. Esta abordagem de reapropriação pode ser resumida em três níveis:

• O primeiro está ligado às competências digitais dos indivíduos ou, mais especificamente, à transliteracia (para habitar o ambiente digital: habilidades para gerir equipamentos e interfaces; produzir e modificar conteúdo; entender a informação e analisar uma situação ou um processo; ter um pensamento crítico).

• O segundo é a re-documentarização (Salaün, 2007). Trata-se de trazer todos os metadados essenciais para a reconstrução dos conjuntos do documento e toda a rastreabilidade do seu ciclo. Nessa reconfiguração geral do acesso, os dados visuais desempenham um papel particular. As próprias imagens não são apenas documentos a serem reprocessados, mas também servem de modelo para o desenvolvimento de novos dispositivos de navegação e indexação de conteúdo. Essa reapropriação de rastros permite a extração de peças e seu registro em novas séries, possibilitando enquadrá-las em uma diversidade de comunidades, em memórias construídas como comuns.

• O terceiro está relacionado a uma patrimonialização explícita, na forma de um arquivo institucional de rastros digitais.

Conclusão

Então, o que aprendemos com a comparação entre as práticas de samba e o webinar em relação à participação?

– O webinar, assim como a sessão de samba, precisa ter objetivo e continuidade para não passar e ser esquecido. Enquanto os integrantes da escola de samba participam, por meio de sua dança, da escolha e da elaboração do tema do próximo carnaval, os integrantes do webinar participam por meio de suas interações (comentários, intervenções, questionamentos, desconexões) na produção do conteúdo e em seu sucesso ou sua falha.

– A escola de samba, bem como o webinar, precisa de membros registrados. Mas os membros não constituem um elemento suficiente para ter participação. Participar não significa apenas ser ativo, é também fazer parte de uma prática, uma cultura e um espaço compartilhados e contribuir na produção de conteúdos valorizados pela comunidade.

– O samba como modelo de participação mostra práticas sociais e culturais, estratégias de comunicação e a importância da construção da memória. A cultura do webinar, para constituir uma estrutura participativa, precisa fazer parte da transliteracia, superar a interação para o envolvimento e o engajamento na escrita, no compartilhamento e na memorização. Os rastros que constituem ou estão vinculados ao webinar, devem ser organizados em projetos de memória (particular, institucional ou coletivo).

– O webinar não pode ser entendido apenas como mais uma ferramenta on-line, mas como um lugar para habitar, favorecendo a participação, a inclusão, a governança e a elaboração da memória. Focando em o que podemos fazer e não apenas no que Eu posso fazer, e possibilitando a construção de comunidades e não apenas as identidades e reputações digitais; a participação pode transitar da capacidade de ler e escrever no digital para a de saber como programar nossa rastreabilidade.

Agradeco sua atenção .

1 Natal V.F. (2014). Cultura e Memória na Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro. Dissertação de mestrado em Sociologia e Antropologia, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

2Galinon-Mélénec B. (2020). The “signe-traces paradigm”. Fragments. Translation by Laura Kraftowitz, from “Fragments théoriques du signe-trace, propos sur le corps communicant”, in L’Homme trace, Perspectives anthropologiques des traces contemporaines, Paris, CNRS éditions, série L’Homme-trace, tome 1, 2011, p. 191-213.

Da construção da identidade à construção da memória: quem constrói no ambiente digital?

Este texto apresenta o discurso de Dr. Hadi Saba Ayon (pesquisador na rede de pesquisa Francesa CDHET na Université Le Havre Normandie) no segundo Seminário Internacional de pesquisa em Design organizado pelo Departamento de Design na Universidade Federal de Brasília (UnB), 13-14 de Novembro de 2018 no Espaço cultural Renato Russo em Brasília.

A sua abordagem se inspira de e se apoia ao texto de Marcello Vitali-Rosati (Université de Montréal no Canadá; Twitter: @monterosato) intitulado “Pour une pensée préhumaine” (2018).

-As fotos são da Louise Merzeau (@lmerzeau)

-As ilustrações são da Laísa Rebelo (@laisarebelo)

Como situar o indivíduo no mundo contemporâneo? Podemos falar de mutação cultural, tecnológica, mas também antropológica que o digital está produzindo em nossas sociedades por meio da rastreabilidade e da memória? Podemos entender a comunicação como uma ultrapassagem da interação social ao rastro digital, de construção da identidade à construção da memória?

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Pensar ou repensar o indivíduo em relação com seu mundo é questionar ou re-questionar o construtivismo (de século XX) que marcou trabalhos em várias áreas científicas- especialmente em antropologia, em comunicação, em antropologia da comunicação e em sociologia (referências de nossa reflexão hoje), e em particular duas Escolas americanas, aquelas de Chicago (interacionismo simbólico) e de Palo alto (construtivismo).

Pensar o indivíduo em relação com o digital é pensar a relação entre a calculabilidade e o pensamento. É interrogar o processo da rastreabilidade digital e suas consequências sobre a construção da sociedade, bem como sobre o humano, um “Homem-rastro” (Béatrice Galinon-Mélénec, 2011) , um produtor de rastros e ao mesmo tempo uma construção de rastros, o todo funcionando em um ciclo e em um continuum, fazendo sistema.

Calculabilidade e pensamento?

O rastro e a cultura digital foram objetos de trabalho e análise por diversas escolas e correntes recentes, em particular a Escola Francesa sobre o rastro (que reuni professores e pesquisadores de várias áreas e diferentes Universidades Francesas) e outras correntes canadenses em Humanidades Digitais (Digital Humanities), em particular na Universidade de Montréal e de Ottawa que estudaram os usos, as condições e os desafios dessa nova cultura, que o Pierre Lévy chama de “Cibercultura” (1997-1999).

Nesta apresentação, vou tentar pensar e debater com vocês (em breve, em menos de 20 min) duas noções, a identidade e a memória, em uma abordagem epistemológica, histórica e contemporânea, aquela de construtivismo e sua versão na era digital. De construtivismo até a teoria de Editorialização (sugerida pelo Marcello Vitali-Rosati e al.) vou questionar as novas formas e os novos processos de ter/fazer identidade (design) e memória.

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Construtivismo

“Pode-se separar o pensamento e o ser?”, pergunta-se Marcello Vitali-Rosati em seu recente artigo intitulado “Pour une pensée préhumaine” (Por um pensamento pré-humano), apresentado na conferência “Repenser les humanités numériques/Re-thinking the Digital Humanities”-“Repensar as Humanidades Digitais” na Universidade de Montréal em Outubro de 2018.

O pensamento deveria ser necessariamente humano? O tempo que estamos vivendo, ele adiciona, nos empurra a fazer a pergunta novamente porque as mudanças técnicas que a caracterizam são baseadas na questão do humano e sua relação com o não-humano, o maquínico e a técnica.

Historicamente, o construtivismo vem da filosofia da ciência. Este campo de estudo procura, em particular, entender o que funda o conhecimento e, em particular, os critérios que fazem que uma atividade seja denominada científica. O construtivismo refere-se à uma abordagem baseada na construção do objeto/realidade pelo sujeito.

Segundo a teoria de Kant (que é às vezes estudada sob o termo da revolução copernicana), o conhecimento dos fenómenos resulta de uma construção realizada pelo sujeito. Mas Kant, nunca formulará a estratégia construtivista com clareza (Rockmore, 2007) .

Cada coisa pode ter suas próprias qualidades, independentemente de serem percebidas por um sujeito ou não? As qualidades podem ser primárias e secundárias. As primeiras são qualidades próprias, independentemente de serem percebidas por um sujeito ou não. As segundas dependem dos modos de percepção.

A distinção entre essas duas qualidades é criticada por Kant. Segundo ele, essa distinção é dogmática porque não pode ser demonstrada. Ele escreve no livro Prolegômenos – A Qualquer Metafísica Futura Que Possa Apresentar-Se Como Ciência (1865):

“Eu digo, ao contrário, que as coisas nos são dadas como externas a nós e ajustáveis aos nossos sentidos, mas que nada sabemos sobre o que elas podem ser em si mesmas, que só conhecemos seus fenómenos; isto é, as representações que fazem em nós quando afetam nossos sentidos”.

O construtivismo hegeliano é entendido como uma reação ao proposto por Kant. Hegel explora ainda a estratégia construtivista na Fenomenologia do Espírito. Em sua introdução, ele descreve como a identidade do sujeito e do objeto é construída. O conhecimento é transformado em verdade no ponto final, onde sujeito e objeto, aquele que sabe e o que sabemos, liberdade e necessidade se sobrepõem.

O “construtivismo hegeliano” monstra que o ser humano está sempre situado em um contexto social; que não há conhecimento a priori, mas apenas a posteriori, e que o conhecimento não é teórico no sentido kantiano, mas, pelo contrário, prático.

“O construtivismo hegeliano se resume a um processo de formular e testar teorias sucessivas, ou trabalhar hipóteses, submetendo-as à prova da experiência” (Rockmore, 2007).

De acordo com Hegel, nós não avaliamos nossas afirmações cognitivas absolutamente, nem abstrata nem teoricamente, nem mesmo no plano a priori, mas apenas no plano posterior.

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Interação social

É nesse sentido que o interacionismo simbólico entende o humano, como ator interagindo com seu ambiente. George Herbert Mead (figura de referência dessa corrente) distingue duas formas de interação: não-simbólica e simbólica. Os participantes de uma interação não-simbólica respondem diretamente às ações dos outros. Enquanto no segundo, as pessoas trocam indicações e símbolos, definem a situação e interpretam suas respectivas ações agindo com base no significado produzido por essa interpretação.

Assim, o comportamento individual não é completamente determinado nem completamente livre, é parte de um debate permanente que permite a inovação. A interação é a única medida de análise. Seguindo Mead, o Self é o resultado da relação de um indivíduo com seu ambiente social. O processo de experiência social não é psicológico, mas é realizado em “uma transação particular entre um organismo físico e seu ambiente social: a comunicação” (Bonicco-Donato, 2014) .

De acordo com Mead, o Self é uma construção social e pode funcionar como um objeto e agir como mediador, fornecendo estímulos para controlar a ação. O Self também pode funcionar como sujeito, a nossa singularidade reflexiva, frente à adoção de atitudes do “outro”.

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Construtivismo e realismo

O construtivismo faz parte de um debate que se opõe ao realismo. O objeto do confronto é como o conhecimento é adquirido e, em particular, o papel do pesquisador nesse processo.

O realismo supõe a existência de uma realidade objetiva independente do humano: os objetos de pesquisa são considerados independentes do observador e a influência que pode ter sobre seu objeto é ignorada. Se o objeto é verdadeiramente independente, então não há laço cognitivo que nos permita conhecê-lo. Neste caso, não se pode “credivelmente” afirmar conhecer um objeto independente, por exemplo, um objeto externo, tão fora da mente/do espírito.

Quanto ao construtivismo, ele propõe estudar uma construção social de objetos e fenômenos.

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Seguindo o realismo, temos um mundo que existe independentemente de nós, e que é totalmente inacessível para nós. Por outro lado, temos um mundo que existe apenas porque temos acesso a ele, mas isso não tem outra existência do que em nosso acesso a ele.

Isso significa que para acessar ao mundo, o mundo tem que existir antes de nos, e o nosso acesso vem depois? Para resolver esse paradoxo, certos idealistas, como George Berkeley, acharam uma explicação: o mundo é apenas o acesso ao mundo, acesso que seria o resultado de uma mediação original, eterna e primária. A mediação não seria um gesto feito pelo sujeito para acessar o mundo, mas uma dinâmica inscrita no próprio mundo.

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Digital

No ambiente digital, cada atividade produz/deixa rastro-s. Esses rastros são produzidos automaticamente (qualquer atividade conectada) e desaparecem à nossa visão e apreensão. São tratados em processos invisíveis que fogem do controle de usuários.

Homem/Mulher-rastro?

“É impossível não deixar rastros” escreve Louise Merzeau (2016) emprestando a famosa expressão da Escola de Palo alto “É impossível não comunicar” (não ter comportamento). Seguindo Alain Mille (2013), o rastro digital é constituído a partir de pegadas digitais deixadas (voluntariamente ou não) no ambiente informático durante os processos computacionais. Os rastros digitais não são mensagens. Eles são “unidades isoláveis, receptivas e calculáveis” (Roger T. Pédauque, 2006).

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Existem vários tipos de rastros (George, 2009; Merzeau, 2013):

              1. Os “rastros de navegação” (que automaticamente afirmam o que um usuário comenta, para onde ele está indo, como ele se comporta);
              2. os “rastros declarativos de perfil” (O que um usuário afirma de si mesmo);
              3. os “rastros ativos” (o que um usuário expressa, o que ele publica, o que ele edita, o que ele produz);
              4. os “rastros calculados” (que se refere ao que o próprio sistema calcula).

Nossos rastros?

O digital chegou a um estágio em que não é mais possível pensar no termo instrumentação, ferramenta, externalidade (…) uma quantidade incrível de objetos, gestos, atividades, incluindo o mais familiares e diários integram hoje uma parte do digital. Isso resulta em uma situação onde o digital não está mais restrito aos objetos identificados como tais, computadores, celulares, tabletes, etc., é cada vez mais em todos os lugares em nosso ambiente (Merzeau, 2016). De acordo com Milad Doueihi (2013), o digital é “um ecossistema dinâmico animado pela normatividade algorítmica e habitado por identidades polifônicas capazes de produzir comportamentos perturbadores”.

O conceito de Humanidades Digitais levanta a questão da definição do humano e sua relação com a tecnologia e as máquinas. Milad Doueihi propõe em 2011 a noção de HUMANISMO DIGITAL (Pour un humanisme numérique), porque o digital não pode ser considerado como um simples conjunto de ferramentas, mas é uma cultura em si que muda nossa relação com o mundo e, finalmente, o nosso modo de ser humanos.

Mas como podemos entender a rastreabilidade digital? Ela “não é uma camada documental que surgiria depois de uma atividade, mas a própria condição de sua execução” disse Louise Merzeau (2013). O Self “Meadiano” é progressivamente constituído no processo de atividade social; a identidade digital não é. Ela é uma coleção de rastros. São os algoritmos que constroem essa identidade via a indexação de rastros. A identidade calculada, de que fala Fanny George no trabalho intitulado “L’identité numérique dans le web 2.0” (2008), é produzida a partir de um processamento da identidade ativa (dando pelas atividades de usuário) pelo sistema. Nesse processo, a construção identitária se realiza fora do sujeito, de sua presença e de seu acesso ao objeto.

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O desafio da identidade digital hoje é que ela reúne o que se refere à nossa singularidade, nossa continuidade, nossos lugares de vida reais, mas ao mesmo tempo estamos no código, nos algoritmos, nas massas (de dados) que só podem ser processadas por máquinas e por modos de tratamento que servem para outras finalidades além de nossos fins pessoais.

Tratamentos maquínicos…

Estudar as redes sociais digitais nos leva para pensá-las como locais de armazenamento, disse Louise Merzeau. Nós enfatizamos a dimensão relacional ou comunicacional (industrial e de marketing), mas raramente pensamos nelas como locais de armazenamento.

Memória

Por muito tempo pensamos a memória em relação com o passado, como se for coisas que se acumulam ou se perdem, mas que estão por trás e que estão nas adegas, e que se acumulam em raios com poeira. A memória do humano é limitada, então ele deve inventar ajudas e próteses de memória para corrigir essa memória defeituosa. Acreditamos que para não esquecer, temos que memorizar. Tudo o que produzimos, escrevemos, arquivamos, serve para salvar e guardar pequenas parcelas que vão escapar por algum tempo ao esquecimento.

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No mundo digital, as ferramentas, os suportes e o ambiente produzem uma inversão “antropológica”: não é mais a memória que é o fundo, é o esquecimento (sua regulação) que exige esforço, investimento e atenção. A “memória” é presente, automática e caótica. Toda atividade deixa rastros, tudo é memorizado automaticamente, instantaneamente, muitas vezes sem ser desejado, sem ser conhecido e sem ser controlado. Como e porque fazer memória na era digital?

Memória digital?

Pensamos por algum tempo que essa memória (digital) automática realizaria o auto-arquivamento de nossa modernidade e que a Internet realizaria o mito memorial da biblioteca integral. Mas a rastreabilidade digital revela hoje o que é: uma anti-memória em favor de uma previsibilidade do comportamento. Convertidos em coleções de rastros que eles não controlam mais, tanto os indivíduos quanto os coletivos devem se reinventar com áreas comuns que carregam perspectivas/objetivos memoriais, heurísticos e políticos. No ambiente digital, preservar não significa fixar, mas duplicar, circular e reciclar. Mais de que restringir ou proteger seus dados, o usuário tem interesse em fazer um rastreamento, ou seja, inserir seus rastros digitais em uma comunidade, contexto e temporalidade. Fazer memória digital significa construir um projeto comum com objetivos e governança comuns. Essa construção se realiza entre dois: o humano e o não humano.

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Na Digital, existem indivíduos, comunidades e ambientes digitais que interagem e dão origem ao espaço digital. Mas há também um AMBIENTE que é o resultado dinâmico de um conjunto de interações entre diferentes forças. Essas interações surgem após indivíduos, comunidades e ambientes digitais.

As comunidades em rede?

A editorialização, noção sugerida pelo Marcello Vitali-Rosati, significa um conjunto de dispositivos técnicos e tecnológicos, de modo que as plataformas, a ergonomia, os gráficos, as palavras-chave, os links, os metadados e todas as atividades que permitem que um conteúdo seja produzido, formatado para um suporte digital e depois divulgado e acessível. Ela é um processo que está aberto no tempo e no espaço, porque o conteúdo não se limita a existir em uma plataforma, mas vive porque é divulgado e disseminado em múltiplas plataformas.

“A editorialização pode ser pensada como o conjunto de condições materiais de mediação que determinam a emergência de um mundo. Ela é um acesso ao mundo que é feito com o próprio mundo”, escreve Vitali-Rosati.

Da mesma maneira que eu penso um objeto ou um sujeito, o ambiente, ou os ambientes digitais pensam esse objeto ou esse sujeito. O acesso ao rastro digital é uma inscrição, material e concreta, e não é humano.

Quem constrói no ambiente digital? Pergunto mais uma vez porque as mudanças técnicas que caracterizam a nossa época são baseadas na questão do humano e de sua relação com o não-humano, ao maquínico e ao técnico.

Fim.

Culture numérique et ville inclusive ? Webinaire international à Rio Branco-Acre (Brésil, 2018)

Discours d’ouverture du Webinaire « Culture numérique et ville inclusive », 1ère Rencontre Internationale sur le numérique et la ville, organisé à Uninorte-Acre (Rio Branco, Brésil), le 21 novembre 2018.

-Solange Chalub , Coordinatrice des études supérieures et de Biologie à Uninorte-Acre au Brésil.
-Hadi Saba Ayon, Chercheur CDHET à l’Université Le Havre Normandie en France; E-laboratory on Human Trace Unitwin Complex System Digital Campus UNESCO.

Solange

Solange Chalub. Source : Rose Sabóia.

Bom dia a todos! Bem vindos ao Webinar “Cultura Digital e Cidade Inclusiva” – 1º encontro Internacional sobre o digital e a cidade, realizado pela UNINORTE-Acre, Brasil, em parceria com Instituições da França, Canadá, Itália e Brasil.

Minhas saudações, em nome da diretoria do Centro Universitário UNINORTE ao:

-Dr. Hadi Saba Ayon, idealizador e parceiro na organização do Evento e aos professores/pesquisadores/consultores/diretores internacionais e nacionais:
-Sra. Béatrice Galinon-Mélénec, Université Le Havre Normandie, França;
-Sra. Marie Delaroque, Côté Cours, Le Havre, França;
-Sra. Armony Altinier, Koena, Paris, França;
-Sra. Agnès d’Arripe, Université Catholique de Lille, França;
-Sr. Marcello Vitali-Rosati, Université de Montréal, Canadá;
-Sr. Jean-Pierre Robin, Réseau international sur le processus de production du handicap, Québec, Canada;
-Sra.Maria Fernanda Arentsen, Université de Saint-Boniface, Manitoba, Canadá;
-Sra. Lucia de Anna, Italian University of Sport and Movement “Foro Italico”, Roma, Itália.
-Sra. Salete Maria Chalub Bandeira, Universidade Federal do Acre, Brasil;
-Sr. Armando Borges, Núcleo Estadual de Tecnologia Assistiva (NETA). Servidor público do Estado do Acre/ Brasil;
-Sra. Simone Maria Chalub Bandeira Bezerra, Universidade Federal do Acre, Brasil.
Aos professores Vander Nicácio e Janeo Nascimento, professores da UNINORTE, parceiros na organização deste Evento.

PalestrantesMeus cumprimentos a todos os participantes e à equipe de apoio. Pretendemos, a partir deste Webinar, provocar muitas discussões, reflexões e novas ideias/projetos que venham reforçar a inclusão, a melhoria no modo de vida das pessoas em comunidade.

Queremos ajudar a superar as barreiras que muitas pessoas têm quanto ao melhor uso do digital e, por fim, queremos fortalecer uma rede de pessoas sensíveis a esse tema; queremos aproximar esses pesquisadores e tornar mais conhecidas suas pesquisas, tão importantes para minimizar e ou até mesmo eliminar os obstáculos enfrentados na atualidade frente a esta questão; queremos influenciar outros pesquisadores, professores e estudantes, de forma que possam contribuir para minimizar/eliminar esses problemas.
Excelente evento a todos! Muito obrigada!
Agora, passo a palavra para o Dr. Hadi Saba Ayon, que dará continuidade ao nosso Webinar.


Webinaire 001

Hadi Saba Ayon. Source : Rose Sabóia.

Bom dia, Bonjour, Bon matin, Good morning,

Mesdames, Messieurs,

Pourquoi la culture numérique et la ville inclusive ?

Ce projet, le webinaire-qui est le résultat d’une longue tournée/mission d’enseignement et de recherche dans plusieurs États Brésiliens au Acre, à Bahia et à Brasília en 2018-, est issu d’une intiative individuelle qui est devenue collective, et qui s’inspire des travaux de recherche et d’action dans le domaine des « Humanités numériques » et des « Sciences du handicap ».

Ces travaux, en majorité français et franco-canadiens, questionnent l’humain à l’ère du numérique le définissant comme un « Homme-trace » conformément à Béatrice Galinon-Mélénec (2011); questionnent la traçabilité numérique et ses enjeux sociétaux; l’humain et son rapport au non-humain selon Marcello Vitali-Rosati (2018); questionnent l’ « humanisme numérique » selon Milad Doueihi (2010) qui est une culture qui modifie notre rapport au monde. Ces travaux interrogent aussi le handicap compris comme « une variation du développement humain » suivant Patrick Fougeyrollas (2010); les facteurs qui produisent la situation du handicap; les habitudes de vie des personnes ayant des incapacités; et les pratiques de participation sociale dans l’espace urbain.

Ce webinaire se réfère à des contributions/réflexions scientifiques, des colloques et des discussions présentielles et en ligne (sur Twitter, Youtube, des blogs de recherche et d’autres espaces web), notamment ceux de l’Ecole Française sur la Trace, de l’E-laboratory on Human Trace unitwin complex system digital campus à l’UNESCO, des chercheurs québecois à l’Université de Montréal, à l’Université Laval, au Réseau international sur le processus de production du handicap- qui a publié en novembre de cette année sa nouvelle Classification (Modèle de développement humain-Processus de production du handicap-MDH-PPH).

Ce projet se veut un pont entre l’Amérique du Sud et l’Europe et l’Amérique du Nord. Un pont non pas que pour le passage et l’échange de l’information et de la connaisance, mais surtout pour la structuration d’un débat riche et fructueux et d’une construction en réseaux qui prend en compte la dimension mondiale et interdisciplinaire des grands enjeux du numérique et de ses usages inclusifs dans la ville.

Rassemblant des chercheurs de disciplines et horizons divers, mais aussi de différents pays, le webinaire met la pierre angulaire d’une collaboration ambitieuse entre des chercheurs Brésiliens et internationaux, appelant à la traduction des travaux académiques et des publications scientifiques de français en portugais et du portugais en français pour faciliter ces échanges.

Le webinaire se veut aussi comme un prolongement du colloque international « Pour une ville inclusive : innovations et partenariats » organisé par le RIPPH à l’Université Laval au Québec les 8-9 novembre 2016.

Ville inclusive Québec

En connectant la ville à l’ « environnement numérique » (Louise Merzeau), le webinaire présentera des travaux :

    • sur l’accompagemnt des personnes ayant des incapacité psychique en France (avec Béatrice Galinon-Mélénec de l’Université Le Havre Normandie et Marie Delaroque de l’association Côté Cours au Havre en France);
    • sur l’inclusion et l’accessibilité du Web (avec Armony Altinier de Koena pour l’accessibilité numérique au service de l’inclusion des personnes handicapées en France);
    • sur l’usage du numérique par des personnes en situation de handicap (avec Agnès d’Arripe de l’Université Catholique de Lille en France);
    • sur la théorie de l’éditorialisation (avec Marcello Vitali-Rosati de l’Université de Montréal au Canada);
    • sur les représentations sociales du handicap dans le dialogue social (avec Maria Ferananda Arentsen de l’Université de Saint Boniface au Canada);
    • les risques d’exclusion à l’ére du numérique (avec Jean-Pierre Robin du Réseau international sur le processus de production du handicap au Canada);
    • sur la technologie numérique dans l’éducation (avec Lucia de Anna de l’Université de Rome “Foro Italico” en Italie);
    • sur les pratiques inclusives et la formation des enseignants (avec Salete Maria Chalub Bandeira de l’Université Fédérale de l’Acre au Brésil);
    • sur le coaching des fonctionnaires publics ayant une déficience visuelle (avec Armando Borges dos Santos du Service de la téchnologie d’assistance à l’État de l’Acre au Brésil);
  • et finalement sur la technologie numérique dans le contexte des pratiques scolaires (avec Simone Maria Chalub Bandeira Bezerra de l’Université Fédérale de l’Acre au Brésil).

Permettez moi, en parlant du numérique, d’avoir un pensée particulière pour Louise Merzeau, professeure/chercheuse et amie de l’Université Paris Ouest Nanterre La Défense, qui est décédée l’an dernier, et qui a marqué par ses travaux la recherche Française et francophone sur le numérique. Ses traces resteront des indices de son reyaunement et des références pour de futur discussions et productions.

Louise Merzeau

Louise Merzeau

Merci au Centre Universitaire Uninorte-Acre qui acceuille ce webinaire/notre webinaire, et à vous tous pour votre participation.

Comment penser le numérique qui modifie notre rapport à la politique, aux choses, à nous-mêmes et à l’espace ? Comment peut-on définir la ville inclusive pour tous et quelles seraient les mesures à prendre en faveur de la population ayant des incapacités ?

Tant de questions à voir tantôt.

Merci et bon webinaire à vous tous.

Ci-dessous le support de la conférence “Handicap et ville inclusive” organisée à Uninorte-Acre en août 2018:

https://drive.google.com/file/d/1ZFWW09pmjweNPnytdl9aS3LaVsG9CpYQ/view