Como “manufaturar” no mundo digital?

Este texto é a intervenção de Dr. Hadi Saba Ayon na reunião do grupo de pesquisa TIPEMSE na Universidade do Estado da Bahia no Brasil sobre a “Emergência da Literacia Digital no Cenário da Sociedade Pandêmica do Séc. XXI”. 

O que é o digital? Por que manufaturar hoje no mundo digital?

Manufaturar é produzir com trabalho manual. Manufatura significa obra feita à mão.No processo manufatureiro vigora a divisão do trabalho, onde cada operário realiza uma operação utilizando instrumentos individuais. A manufatura sucedeu o artesanato, no século XV, como forma de produção e organização de trabalho[1].

Eu uso o verbo “manufaturar” como metáfora, porque o uso da tecnologia na era digital ainda passa pelas mãos. Computadores, celulares, tabletes, objetos conectados, todos esses dispositivos precisam da mão, de dedos para produzir e compartilhar um conteúdo. Mas o ecossistema digital, na sua essência e no seu funcionamento, não é manual nem opera artesanalmente. Ele é informático, computacional, binar, e consiste num conjunto de dispositivos eletrônicos (hardwares) capazes de processar informações de acordo com programas (softwares) e em rede.   

Seguindo Milad Deouihi, historiador de religiões e detentor da cátedra de humanismo digital na Universidade de Paris-Sorbonne, o digital é a ultrapassagem da tecnologia computacional para os usos culturais no mundo digital. Ele é:

Um ecossistema dinâmico animado pela normatividade algorítmica e habitado por identidades polifônicas capazes de produzir comportamentos perturbadores (Doueihi, 2013).

Este “urbanismo virtual nascente” está mudando as nossas sociedades e a construção dos espaços que habitamos. Ele se caracteriza com:

Fronteiras e limites que definem espaços íntimos ou reservados para o culto, espaços de conhecimento ou entretenimento, espaços marcados pelo uso e frequentados pela prática. “Um urbanismo híbrido, portanto, habitado por rastros, pedaços de documentos, fragmentos, mas também animado pela voz e corpo, uma temporalidade outra (Doueihi, 2011).

Brutalmente, o SARS-CoV-2 invadiu as nossas sociedades colocando a nossa civilização em perigo. A pandemia de Covid-19 nos obrigou a mudar muitos hábitos de vida. Ela impactou a interação social transformando nossos modelos de viver (morar, trabalhar, se socializar, estudar, viajar etc.). As circunstâncias dessa situação nos levam a pensar no surgimento de um novo mundo. Quais serão suas figuras? Como fazer saber, informar e comunicar? Como tomar parte e intervir em uma ação? Como compartilhar e fazer parte integrante em uma atividade, de uma comunidade? Como associar-se pelo pensamento ou sentimento? Como participar e construir uma sociedade digital e de conhecimento? Quais identidades e habilidades neste novo mundo? Quais comunidades? Quais trabalhos?

Muitas questões, que nos perguntamos, eu e o Professor Carlos Antonio Villa Guzmán da Universidade de Guadalajara no México, em nossa inciativa/texto escrito (que vai ser publicado logo) para emergir um coletivo internacional PANDEMIA, CULTURA DIGITAL E PARTICIPAÇÃO, que pensa a cultura participativa no mundo digital, pandêmico e post-pandemia.

Como explicar a cultura participativa e reinventar o nosso cotidiano? Como a pandemia redefine o nosso espaço e as estruturas arquitetônicas no ambiente digital? Mais questões para debater com um grupo de colegas em um webinário intitulado “Post pandemic, participation matters” (Pós-pandemia, questões sobre a participação) na Escola da Comunicação na Universidade Católica da Indonésia em Jacarta no final deste mês. Muitas questões, e poucas respostas até o momento.

E hoje estou com vocês no Grupo de Pesquisa TIPEMSE na Universidade do Estado da Bahia para debater sobre a “Emergência da Literacia Digital no Cenário da Sociedade Pandêmica do Séc. XXI”. Pensar a educação no digital começa para pensar o digital, não só como suporte e mídia, mas sobretudo como ambiente: Isso é o primeiro passo para uma literacia ou uma transliteracia que nós precisamos.

Seguindo Louise Merzeau, Professora e pesquisadora francesa que faleceu em 2017 e deixou um trabalho científico notável, a transliteracia se refere as:

1. Habilidades criativas e produtivas (como conceber, realizar, modificar);

2. habilidades do ambiente (buscar, achar e entender a informação, analisar uma situação ou um processo);

3. e as habilidades reflexivas (entender que os sistemas digitais tem valores, e seu uso e seu domínio permitem fazer sociedade com um olho crítico).

A transliteracia envolve 3 dimensões:

1. Uma capacidade para desenvolver competências individuais;

2. uma capacidade coletiva para agir com os outros;

3. e uma capacidade política para agir no ambiente e mudá-lo.

Neste sentido, mais de que restringir ou proteger nossos dados, nos temos interesse em fazer um rastreamento, ou seja, inserir nossos rastros digitais em uma comunidade, um contexto e uma temporalidade para sobreviver no mundo post-pandêmico e digital.

Obrigado.


[1] No site dos Significados: https://www.significados.com.br/

Fighting the diktat of a pandemic through a fair digital environment

Fighting the diktat of a pandemic through a fair digital environment

This text, written by Doctor Hadi Saba Ayon, is the translation from French of his intervention in the web chat “The invisibility of people with disabilities in the context of Covid-19”, organized by the International Network on disability production process (RIPPH), April 29, 2020.

Could digital culture save us in the times of pandemic – and later on- in the post-pandemic era? How do we grasp our individual and collective actions in this “place of links” (Merzeau, 2013) with its inscribed traceability in a computational dimension?

Once again, we find ourselves face to face with digital technology, questioning its capacity to provide answers to our uncertainties. Could it be a “new civilizing process” (Doueihi, 2018)? Furthermore, has SARS- CoV-2 triggered a process of “uncivilization”? Do the thousands of deaths around the world[1]; the hundreds of testimonies of families and organisations on abandoned disabled and vulnerable loved ones and the heartbreaking stories of triage of patients[2] recreate a “humiliation processes” (Smith, 2001) against the most vulnerable, in particular those suffering from disabilities?

Digital culture and essential animality

Seduced by the promises of technology of a better future, we were taken aback by the digital. Historian Milad Doueihi described this fascination as “a new civilising process”, borrowing the term from the German sociologist Norbert Elias. The latter defined ” Civilising Process” as a correspondence between the historical process of seizing power by a centralised state on the one hand, and the self-control exercised by individuals over their spontaneous violence, their instincts and their affects- on the other.

Elias described humans (from European societies) of the twentieth century as “late barbarians”. The last were described by Doueihi as being “modern savages” submitted to a “digital humanism”, or:

“The result of converging complex cultural heritage with a technique that has become a place of unprecedented sociability”.

As far as Doueihi is concerned, digital technology defines as:

“A culture in the sense that it sets up a new global context, and because digital – despite a strong technical component we must always question and constantly monitor because it is the agent of an economic will – has become a civilisation distinguished by its ability to alter our vision of objects, relationships and values. The new perspectives that characterise it introduce into the field of human activity”. 

All of a sudden, SARS-CoV-2 invades our world and sends us back to our fundamental animality. Stéphane Audoin-Rouzeau, a WWI historian, writes:

“We remain homo-sapiens belonging to the animal world, vulnerable to diseases against which our fighting capacities remain rustic given our supposed technological power”.

Against this backdrop, could we be facing a process of “uncivilization” triggered by SARS-CoV-2? What is likely to cause such an upheaval? Can we find answers “on the side of lowering the calculability of social risks, increasing dangers, increasing uncertainties, which can occur in times of social crisis”, epidemic or pandemic? It is difficult for us to answer this just yet. 

Overwhelmed by their physical or functional differences throughout their life, a disabled person finds themself in the digital environment, in times of a pandemic, on equal terms with Internet users. The body is at the heart of social interaction: we live, and we build ourselves through our body. However, at present, this social (physical) interaction – is severely limited – because of Covid-19. Bodies become suspicious in public and even private spaces. They are inspected, evaluated, often sidelined, abandoned, sometimes even ousted. Sars-Cov-2, like AIDS, disrupts the relationship with others, dims the practices that build trust, and reinforces the constraints towards the contaminating agent. For anthropologist Françoise Héritier, the solutions found by humanity for illnesses like AIDS emerged from restraint rather than the need to convince.     

Such a conclusion may seem despairing because the underlying constraints are biased. However, our experience with incurable infectious diseases, shows that the societies tend to protect themselves by fleeing, or even by sidelining, abandoning, expelling or killing the contaminating agent.

The body of the disabled person, already a source of social stigma, suddenly becomes equal to other bodies. What matters (alarms) is the presence of another, at a distance far enough to be perceived as reassuring (less than 1 meter). Thus, all bodies become equal in their vulnerability to fear, sickness, and death.

During the current crisis, the digital is providing our community with leeway, thus enabling us to function. Whether it is to inform, communicate, telecommute, study, shop, or manage administrative work: more than ever, the digital proves to be an environment for social processes. Due to physical distancing, individuals are forced in their interactions to abandon or reduce their face-to-face relationships when faced with the risk of becoming infected or infecting others. The body becomes suspicious. By isolating it from the public space, we deprive it of its symbolic social interaction (as defined by George Herbert Mead), since symbolic interaction initiates a process of interpretation and definition by which some establish the meanings of the actions of others and redefine their actions.

In digital environments, all interaction produces traces, mostly involuntary ones. The latter avoid all utterance and produce information on our behaviour. According to Louise Merzeau (2013), traces resist interpretations of semiology because they stem from another logic. Everything they carry is the product of processing: “computer processing of instructions, algorithmic processing of data, economic and strategic processing of databases of intentions”. Today digital businesses tend to impose marketing logic through the model of personal branding, profiling and e-reputation. “Opposing a publication function to this advertising acceptance of traces represents a major political and cultural issue” (Merzeau, 2013).

Let us keep in mind that the Internet is an opportunity for democracy, thanks to the egalitarian foundations that presided over its birth and development (Cardon, 2010). However, user communities still struggle with access, accessibility and reappropriation of traces. How could disabled people, consequently, organise their digital habitat while guaranteeing full social participation? 

Equipment, access, accessibility 

The Convention on the Rights of Persons with Disabilities (UN, 2006) recognises:

“The importance of accessibility to the physical, social, economic and cultural environment, to health and education and to information and communication, in enabling persons with disabilities to fully enjoy all human rights and fundamental freedoms”.

The access is therefore an essential condition for the exercise of human rights.

By positioning the notion of access in the conceptual domain of the environment to measure its impact on social participation, Patrick Fougeyrollas and his fellows (2015), Patrick Fougeyrollas and his colleagues (2015) presented access as the intersection between six dimensions and components of the environment. The dimensions are as follows: availability; accessibility; acceptability; affordability; usability, and adaptability. So the issue is not reduced to access to the IT tool, the network provider and wired or wireless access. We are facing a phase requiring digital literacy, learning and expertise, imperative to the use of technology and the administration of content.

Many studies showcase limited access to digital technology faced by diverse populations, including disabled people.  One recent study called Perspectives of Young Adults on Receiving Telepsychiatry Services in an Urban Early Intervention Program for First-Episode Psychosis: A Cross-Sectional, Descriptive Survey Study, published on March 2020 by a group of Canadian researchers (Montréal). The study shows the existing of limited knowledge on telepsychiatry in specialized services for first-episode psychosis (FEP), “despite its potential for improving service access and engagement”.

It points out that more than half of the participants (59%) “rarely or never used mainstream video chat (e.g., Facetime)”. The study showed that “despite experiencing obstacles to attending appointments and expressing receptivity towards telepsychiatry, participants did not have access to these services. It is important to provide education to clinicians on the potential of telepsychiatry to improve service access”.

In the era where digital technology affects personal and environmental factors and everyone’s life habits, the full social participation of disabled people should question usage rather than access. What can we do with and in digital so that our presence is not limited to one or more identities exploited by trackers (governments, companies, individuals, and others)? We are facing a socio-technical ecosystem where the user is the centre and the brain. It is therefore essential, for the disabled person as well as for any other person, to create methods and find ways to develop social links, self-esteem, control of one’s life and time, quality of life, and to build online communities. How to think digital traces in an approach that no longer refers to an identity but to an ability to manage communication?

The “Digital divide” concept implies that inclusion is the answer. The web was initially designed to work for everyone, regardless of hardware, software, language, location or ability. It means that the web should be accessible to people with various range of hearing, movement, sight and cognitive abilities..

According to the World Wide Web Consortium (W3C):

“When websites and web tools are properly designed and coded, people with disabilities can use them”.

More specifically, people can: perceive, understand, navigate and interact with the web and contribute to it. Access to devices and the Internet, the adaptation of the workplace are not enough to accomplish network social participation. Digital is not just a technical and economic issue but contributes to the construction of a social project.

Putting their physical or functional differences aside, a disabled person can get involved in collaborative production projects to meet their (individual and collective) needs. According to Serge Proux (2014), this (collaborative) “form of contribution” refers us to a universe of modest, horizontal exchange relations between peers where contributors are engaged in:

“A universe of commonly shared normative expectations. There are shared values between contributors like freedom of expression, the logic of giving, the need for cooperation”.

Co-build memories

How to operate actively in the knowledge society? How to bring out a new “living together”? The current pandemic reminds us that we are drowning in information. The latter is everywhere, reliable and fake, archived and poorly documented, multimedia. If accessing it is easy, the process of using and turning it into knowledge is not a given. Digital has turned the concept of reception upside down. The diagram transmitter-receiver (known in Information Science) no longer applies to networked information, at least on the Internet user. The latter is no more than a receiver of information (as was the case with mass media), but he produces it, he seeks it, shares it, creates networks, participates in conversations and builds communities.

Today, we are interested in two logics among others in digital uses in a pandemic period: the first is passive, receives/consumes information, likes and shares it (especially on social networks and chat applications). The second, meanwhile, produces / co-develops information, stores it and shares it (on web pages, collaborative writing platforms, blogs.). The transition from receiving information to producing and sharing it requires thinking digital not only as a medium but also as an environment to be lived in and improved. This, in turn, calls for the development of digital skills but above all a vision of an appropriation of digital traces in “intelligent” environments, which can be used to train us, to find and understand information and to analyse situations or processes. The emerging post-pandemic world begs us to exchange, write and memorise collectively. It is in this way that disabled people, as well as all other people, appropriate their digital traces in architectural structures that allow reading and writing attached to the moment, but also extracted from other temporalities.

The building or co-building an “intelligent” digital environment means developing a digital memory, which can increase individual and collective power and above all, action on the environment to transform it when necessary.

Ends.


[1] Check the article of Jérôme Val in France Inter « Coronavirus : a-t-on oublié les foyers de handicapés ? », published on 15 April 2020, https://www.franceinter.fr/coronavirus-a-t-on-oublie-les-foyers-d-handicapes.

Check « L’alerte de 48 associations sur le sort des personnes handicapées, ‘oubliées de la pandémie’ de coronavirus », published on 04 April 2020, https://www.lejdd.fr/Societe/lalerte-de-48-associations-sur-le-sort-des-personnes-handicapees-oubliees-de-la-pandemie-de-coronavirus-3959794

Check the article of Emely Lefrançois in La presse « Personnes en situation de handicap : les milieux de vie dont on ne parle pas », published on 20 April 2020, https://www.lapresse.ca/debats/opinions/202004/19/01-5270046-personnes-en-situation-de-handicap-les-milieux-de-vie-dont-on-ne-parle-pas.php

Check the article of Autistics for Autistics Ontario intitulé “Intellectually disabled Canadians are dying in residential institutions: What’s happening & what can be done”, published on 17 April 2020, https://a4aontario.com/2020/04/17/intellectually-disabled-canadians-are-dying-in-residential-institutions-whats-happening-what-can-be-done/

[2] Check the article of Vincent Olivier in L’Express « Covid 19 : va-t-on « sacrifier » des malades en réanimation ? », published on 12 March 2020, https://blogs.lexpress.fr/le-boulot-recto-verso/2020/03/12/covid-19-va-t-on-sacrifier-des-malades-en-reanimation/

Check the article of Eric Jozsef in Libération « Covid-19 : la sélection des malades divise le corps médical italien », published on 19 March 2020, https://www.liberation.fr/planete/2020/03/19/la-selection-des-malades-divise-le-corps-medical-italien_1782400


References

– Cardon D. (2010). La Démocratie Internet, Promesses et limites, Seuil, Paris.
– Doueihi M. (2018). Le numérique, un nouveau processus civilisateur. Le Monde, 24 janvier 2018, https://www.lemonde.fr/idees/article/2018/01/24/le-numerique-un-nouveau-processus-civilisateur_5246335_3232.html
– Doueihi M. (2011). Pour un humanisme numérique, Seuil, Paris.
– Fougeyrollas P., Boucher N., Fiset D., Grenier Y., Noreau L., Philibert M., Gascon H., Morales E., Charrier F. (2015). Handicap, environnement, participation sociale et droits humains : du concept d’accès à sa mesure. Revue Développement humain et changement social, avril 2015, p. 5-28.
– Lal Sh., Abdel-Baki A., Sujanani S., Bourbeau F., Sahed I., Whitehead J. (2020). Perspectives of Young Adults on Receiving Telepsychiatry Services in an Urban Early Intervention Program for First-Episode Psychosis: A Cross-Sectional, Descriptive Survey Study. Frontiers Psychiatry, 11:117, doi: 10.3389/fpsyt.2020.00117
– Lepalec A., Luxereau A., Marzouk Y. (1997). Entretien avec Françoise Héritier. Journal des anthropologues, n° 68-69, p. 21-33.
– Merzeau L. (2013). L’intelligence des traces. Intellectica, vol. 1, n° 59, p. 115-135.
– Newton T. (2008). (Norbert) Elias and Organization: Preface. Organization, 8(3), p. 459-465.
– Paillé S. (2017). La sociologie de Norbert Elias et « l’effondrement de la civilisation » en Allemagne. Cycles Sociologiques, vol. 1, n° 1, https://cycles-sociologiques.com/publications__trashed/sabrina-paille-la-sociologie-de-norbert-elias-et-leffondrement-de-la-civilisation-en-allemagne/
– Proulx S. (2014). Enjeux et paradoxes d’une économie de la contribution, dans La contribution en ligne : pratiques participatives à l’ère du capitalisme informationnel, Presse de l’Université du Québec, Québec.
– Smith D. (2001). Organizations and Humiliation: Looking beyond Elias. Organization, vol. 8, n° 3, p. 537-560.

Diante do ditado da pandemia: digital igualitário?

Diante do ditado da pandemia: digital igualitário?
Esta é a versão em português do texto original em francês.
As citações são traduzidas pelo próprio autor. 

Este texto completo, escrito pelo Dr. Hadi Saba Ayon, é uma extensão de sua intervenção na webconferência “A invisibilidade de pessoas com disability no contexto do Covid-19”, organizada pela Rede Internacional sobre o processo de produção de disability (RIPPH), 29 de abril de 2020.

O digital pode nos salvar em tempos de pandemia – e mais tarde na era pós-pandêmica? Como pensar nossas ações individuais e coletivas nesse “lugar de links” (Merzeau, 2013) caracterizado pela rastreabilidade inscrita em uma dimensão computacional? Mais uma vez, encontramo-nos com a tecnologia digital, questionando sua capacidade de encontrar soluções para nossas incertezas. O digital poderia ser um “novo processo civilizador” (Doueihi, 2018) ?

Poderia tornar-se assim diante de um processo de “descivilização” desencadeado pelo SARS-CoV-2? A morte de milhares de pessoas em todo o mundo; testemunhos sobre o abandono de pessoas vulneráveis afetadas pelo COVID-19, conforme relatado por famílias e organizações que defendem e / ou cuidam de pessoas com deficiência (disability) em todo o mundo[1]; triagem de pacientes para admissões de reanimação[2] … tantos índices e histórias nos confrontam com “processos de humilhação” (Smith, 2001) que visam populações vulneráveis e, em particular, pessoas com deficiência.

Cultura digital e animais sociais

Fascinados pela tecnologia e por suas promessas de um futuro melhor para nossas sociedades, estávamos apaixonados por tecnologia digital que Milad Doueihi, historiador de religiões e titular de cátedra do Humanismo digital da Universidade de Paris-Sorbonne (Paris-IV), denomina “um novo processo civilizador”, emprestando o termo ao sociólogo alemão Norbert Elias. O que Elias chama de “o Processo Civilizador” é de fato uma correspondência entre o processo histórico de tomada do poder por um estado centralizado e o autocontrole exercido pelos indivíduos sobre sua violência espontânea, instintos e afetos. Elias descreveu os seres humanos (das sociedades europeias) do século XX como “bárbaros modernos” (late barbarians). Os últimos foram descritos por Doueihi como sendo “selvagens modernos” sujeitos a um “humanismo digital”:

“O resultado de uma convergência entre nosso complexo patrimônio cultural e uma técnica que se tornou um local de sociabilidade inédita”.

De acordo com Doueihi (2011), o digital:

“É uma cultura, no sentido de que estabelece um novo contexto, em escala global, e porque o digital, apesar de um forte componente técnico que sempre deve ser questionado e constantemente monitorado (porque é o agente de uma vontade econômica), tornou-se uma civilização que se distingue pela maneira como muda nossa visão de objetos, relacionamentos e valores, e que é caracterizada pelas novas perspectivas que introduz no campo da atividade humana”.

Brutalmente, o SARS-CoV-2 invade nosso mundo e nos envia de volta à nossa animalidade fundamental. Stéphane Audoin-Rouzeau, historiador da Primeira Guerra Mundial, escreve:

“Continuamos sendo homo sapiens pertencentes ao mundo animal, atacáveis por doenças contra as quais os meios de luta permanecem rústicos em vista de nosso suposto poder tecnológico”.

Estamos enfrentando um processo de “descivilização” provocado pelo SARS-CoV-2? O que provavelmente causará tal agitação? Podemos encontrar respostas “do lado de diminuir a calculabilidade dos riscos sociais, aumentar os perigos, aumentar as incertezas, que podem ocorrer em tempos de crise social”, epidemia ou pandemia? Difícil de responder ainda.

Sobrecarregada por sua diferença física ou funcional ou comportamental ao longo de sua vida, a pessoa com deficiência está no mundo digital, em um período de pandemia, em pé de igualdade com os usuários da Internet? O corpo está no centro da interação social: vivemos e nós construímos através do corpo. Mas, atualmente, essa interação social (corporal) – é severamente limitada – exige o Covid-19. Esse corpo se torna suspeito no espaço público e até privado. Ele é controlado, julgado. Ele é muitas vezes excluído, abandonado, às vezes até expulso. Sars-Cov-2, como a AIDS, rompe o relacionamento com os outros, borra as regras que constroem a confiança e reforça a restrição em relação ao agente contaminador. Para a antropóloga Françoise Héritier, as soluções encontradas pela humanidade em relação a problemas como a AIDS vieram mais de constrangimentos do que da necessidade de convencer.

Isso pode parecer desesperado, porque as restrições básicas estão mais do lado da intolerância do que da tolerância, mas a experiência que temos da doença contagiosa incurável ou da epidemia mortal mostra que as diferentes sociedades se protegem às vezes pela fuga, mas geralmente pelo afastamento, o abandono, a expulsão ou matando o contaminante.

O corpo da pessoa com deficiência, um ponto de estigma social, torna-se repentinamente igual a outros corpos. O que importa (assustar) é a presença de qualquer corpo, a uma distância suficientemente afastada para ser percebida como segura (pelo menos um metro). É assim que todos os corpos se tornam iguais em relação ao medo, doença e morte.    

Perante essa crise universal terrificante que agita nossas vidas e interrompe nossos hábitos, a humanidade encontra na tecnologia digital um caminho pela continuidade da organização e o funcionamento de suas sociedades. Informar-se, comunicar-se, trabalhar online, estudar, fazer compras, gerenciar assuntos administrativos: mais do que nunca, o digital está se mostrando como um ambiente no qual o processo social está inscrito. Diante do constrangimento do distanciamento físico, os indivíduos se veem forçados em suas interações a abandonar ou reduzir seus relacionamentos face-a-face para não correr o risco de se infectar ou infectar outras pessoas. O corpo se torna suspeito. Com sua retirada do espaço público, ele rasga da interação social seu “simbolismo” no sentido meadiano (de George Herbert Mead), na medida em que a interação simbólica inicia um processo de interpretação e definição pelo qual alguns estabelecem os significados das ações de outros e redefinem suas ações. Aninhada em ambientes digitais, toda interação produz rastros. Principalmente involuntários, esses rastros escapam à enunciação e produzem informações sobre nosso comportamento.

Segundo Louise Merzeau (2013), esses rastros resistem às interpretações da semiologia porque se destacam de outra lógica. Tudo neles é o produto do processamento: “processamento de instruções por computador, processamento algorítmico de dados, processamento econômico e estratégico de bancos de dados de intenção”. Hoje, as empresas digitais tendem a impor a lógica de marketing através do modelo de Personal branding, criação de perfilhamento e e-reputação. “Opor-se a essa aceitação publicitária uma função de publicação de rastros representa um importante desafio político e cultural” (Merzeau, 2013).

Lembremos que a Internet é uma oportunidade para a democracia, graças às fundações igualitárias que presidiram seu nascimento e desenvolvimento (Cardon, 2010). No entanto, ainda tem comunidades de usuários que encontram dificuldades no acesso; na acessibilidade e na reapropriação de rastros. Como as pessoas com deficiência poderiam, portanto, organizar seu hábitat digital, garantindo uma plena participação social?

Equipamento, acesso e acessibilidade

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006) reconhece os direitos dessas pessoas de ter “acessibilidade aos meios físico, social, econômico e cultural, à saúde, à educação e à informação e comunicação, para possibilitar às pessoas com deficiência o pleno gozo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”. O acesso é, portanto, uma condição essencial para o exercício dos direitos humanos.

Colocando a noção de acesso no domínio conceitual do meio ambiente para medir seu impacto na participação social, Patrick Fougeyrollas e seus colegas (2015) apresentaram o acesso como a interseção entre seis dimensões e componentes de ambiente. As dimensões são as seguintes: disponibilidade; acessibilidade; aceitabilidade; abordabilidade; usabilidade e adaptabilidade. Desta forma, o problema não se reduz ao acesso à ferramenta de TI, ao provedor de rede e ao acesso com ou sem fio. Estamos enfrentando uma fase que exige uma literacia digital, aprendizado e saber-fazer, imperativos para o uso da tecnologia e a administração de conteúdo.

Muitos estudos mostram obstáculos ao acesso ou acesso limitado à tecnologia digital por diversas populações, incluindo pessoas com deficiência. Cito um estudo recente intitulado:

“Perspectivas de adultos jovens sobre a recepção de serviços de telepsiquiatria em um programa urbano de intervenção precoce para psicose no primeiro episódio: um estudo transversal e descritivo” (Perspectives of Young Adults on Receiving Telepsychiatry Services in an Urban Early Intervention Program for First-Episode Psychosis: A Cross-Sectional, Descriptive Survey Study) publicado em março de 2020 por um grupo de pesquisadores canadenses (Montreal). O estudo mostra a existência de conhecimento limitado em telepsiquiatria em serviços especializados para o Primeiro Episódio Psicótico, “apesar de seu potencial para melhorar o acesso a serviços e engajamento”. Ele mostra que mais da metade dos participantes (59%) “raramente ou nunca usavam o chat por vídeo tradicional (por exemplo, o Facetime)”. O estudo relata que “apesar dos obstáculos encontrados em comparecer às consultas e expressar sua receptividade à telepsiquiatria, os participantes não tiveram acesso a esses serviços”.

Na era em que a tecnologia digital afeta fatores pessoais e ambientais e os hábitos de vida de todos, a plena participação social de pessoas com deficiência e de todos deve questionar o uso e não apenas o acesso. O que podemos fazer com (e no) digital para que nossa presença não se limite a uma ou diversas identidades exploradas pelos perseguidores de rastros (governos, empresas, indivíduos e outros)? Estamos diante de um ecossistema sociotécnico no qual o usuário é o centro e o cérebro, daí a importância, para a pessoa com deficiência e para qualquer outra pessoa, de pensar em métodos e maneiras para desenvolver laços sociais, autoestima, controle da vida e do tempo, qualidade de vida e construir comunidades online. Como pensar os rastros digitais em uma lógica que não se refere mais a uma identidade, mas à uma capacidade de gerenciar a comunicação?

O conceito da “fratura digital” sugere que o problema da inclusão digital seria resolvido assim que as medidas fossem bem-sucedidas em “incluir” os grupos excluídos. A web foi projetada para funcionar para todos, independentemente de seu hardware, software, idioma, local ou habilidade. Nesse caso, a web deve estar acessível a pessoas com várias habilidades auditivas, motoras, visuais e cognitivas.

De acordo com o World Wide Web Consortium (W3C), a acessibilidade na Web significa que sites, ferramentas e tecnologias são concebidos e desenvolvidos para que pessoas com deficiência possam usá-los.

Mais pormenorizadamente, as pessoas podem: perceber, entender, navegar e interagir com a web e contribuir. O acesso aos terminais e à Internet, bem como a adaptação de posto de trabalho de acordo com a deficiência, não são suficientes para a participação social na rede. O digital não é apenas uma questão técnica e econômica, mas contribui para a construção de um projeto de sociedade.

Deixando de lado sua diferença corporal ou funcional ou comportamental, a pessoa com deficiência pode se envolver em projetos de produção colaborativos para satisfazer suas necessidades (individuais e coletivas). De acordo com Serge Proux (2014) essa “forma de contribuição” (colaborativa) nos remete a um universo de modestas e horizontais relações, de troca entre colegas em que colaboradores estão envolvidos em:

“Um universo de expectativas normativas compartilhadas conjuntamente. Existem valores compartilhados entre colaboradores, como liberdade de expressão, a lógica da doação, a necessidade de cooperação”.

Construir memórias conjuntamente

Como funcionar ativamente na sociedade do conhecimento? Como fazer emergir um novo “viver juntos”? A pandemia atual nos lembra que estamos afogados em informação. Essa última está em qualquer lugar, confiável e falsa, arquivada e mal documentada, multimídia. Se seu acesso é fácil, seu uso e sua transformação em conhecimento não são óbvios. O digital transtornou o conceito de recepção.

O esquema de emissor-receptor (conhecido em Ciência da Informação) não se aplica mais à informação em rede, pelo menos no usuário da Internet. Este último é mais do que um receptor de informações (como foi o caso dos meios de comunicação de massa), ele produz, procura, compartilha, cria redes, participa de conversas e constrói comunidades. Nesse período de pandemia, duas lógicas em usos digitais, entre outras, nos interessam: a primeira é passiva, recebe/consome informação, a curte e a compartilha (principalmente em redes sociais e aplicativos de bate-papo). etc.). A segunda, enquanto isso, produz/elabora coletivamente a informação, a armazena e a compartilha (em páginas da web, plataformas de escrita colaborativa, blogs etc.).

A transição do recebimento de informações para a produção e o compartilhamento exige pensar o digital não apenas como um meio e / ou uma mídia, mas também como um ambiente para morar e melhorar. Isso implica desenvolver habilidades digitais, mas sobretudo uma visão de apropriação de rastros digitais em ambientes “inteligentes”, que podem ser usados para nos constituir, encontrar e entender informações e analisar situações ou processos. Em nosso novo mundo (pandemia e pós-pandemia), a troca de informações em torno de um tema ou questão torna-se escrever e memorizar. É assim que as pessoas com deficiência, assim como todas as outras pessoas, apropriam seus rastros digitais em estruturas arquitetônicas que permitem a leituras-escritas ligadas ao momento, mas também extraídas de outras temporalidades.

Construir ou cooperar na elaboração de um ambiente digital “inteligente” significa desenvolver uma memória digital, que pode aumentar o poder individual, coletivo e, acima de tudo, a ação no ambiente para transformá-lo quando necessário.

Fim.


[1] Ver o artigo de Jérôme Val no jornal France Inter « Coronavirus : a-t-on oublié les foyers de handicapés ? », publicado no dia 15 de abril de 2020, https://www.franceinter.fr/coronavirus-a-t-on-oublie-les-foyers-d-handicapes.

Ver « L’alerte de 48 associations sur le sort des personnes handicapées, ‘oubliées de la pandémie’ de coronavirus », publicado no dia 04 de abril de 2020, https://www.lejdd.fr/Societe/lalerte-de-48-associations-sur-le-sort-des-personnes-handicapees-oubliees-de-la-pandemie-de-coronavirus-3959794

Ver o artigo de Emely Lefrançois no jornal La presse « Personnes en situation de handicap : les milieux de vie dont on ne parle pas », publicado no dia 20 de abril de 2020, https://www.lapresse.ca/debats/opinions/202004/19/01-5270046-personnes-en-situation-de-handicap-les-milieux-de-vie-dont-on-ne-parle-pas.php

Ver o artigo de Autistics for Autistics Ontario intitulado “Intellectually disabled Canadians are dying in residential institutions: What’s happening & what can be done”, publicado no dia 17 de abril de 2020, https://a4aontario.com/2020/04/17/intellectually-disabled-canadians-are-dying-in-residential-institutions-whats-happening-what-can-be-done/

[2] Ver o artigo de Vincent Olivier no jornal L’Express « Covid 19 : va-t-on « sacrifier » des malades en réanimation ? », publicado no dia 12 de março de 2020, https://blogs.lexpress.fr/le-boulot-recto-verso/2020/03/12/covid-19-va-t-on-sacrifier-des-malades-en-reanimation/

Ver o artigo de Eric Jozsef no jornal Libération « Covid-19 : la sélection des malades divise le corps médical italien », publicado no dia 19 de março de 2020, https://www.liberation.fr/planete/2020/03/19/la-selection-des-malades-divise-le-corps-medical-italien_1782400


Referências

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